Por José Waldik Ramon*

“Calma professor, ainda falta acertar um detalhe do layout, enviaremos depois do almoço…” – afirmei. “Não! Envie agora! Depois vamos almoçar, o pessoal está esperando…” – retrucou Sérgio Ferreira. “Então, estão esperando. Vamos lá e eu enviarei após o almoço, com um acerto melhor de detalhes.” – mandei de volta. “A gente acerta os detalhes e melhora as coisas no próximo, afinal, estaremos sempre melhorando…” – devolveu Sérgio. “Hum… tá bem!” – concordei… E foi nesse clima que nasceu, em 31 de agosto de 2000, por volta de meio-dia, o boletim DOL – Dor On Line, projeto do qual você, prezado leitor, está agora lendo o editorial. O projeto DOL é uma ideia de Sérgio Henrique Ferreira, a qual ele cultivou por algum tempo e que conseguimos colocar em prática depois de muita discussão.

Mas como surgiu o DOL e quem é o Sérgio Ferreira, essa figura ímpar com a qual tenho o prazer de levar adiante esse projeto desde seu início, e que nesse mês de agosto entra em seu 15º ano de existência?

Dono de uma mente sempre inquieta e investigativa, Sérgio Henrique Ferreira é, atualmente, docente emérito do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP. Nascido em Franca, formou-se médico pela Faculdade de Medicina de São Paulo em 1960, tendo mudado, então, para Ribeirão Preto, onde iniciou suas atividades no Departamento de Farmacologia e ali permanece até hoje. Nesse local, já ministrou aulas de graduação, orientou alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado, além da extensa pesquisa científica que desenvolveu ao longo de mais de 50 anos dedicados à ciência.

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 “Sérgio Ferreira na bancada do laboratório. O equipamento logo à sua frente é uma plataforma utilizada no teste denominado “Randall & Selitto modificado”, o qual mede a hiperalgesia por pressão constante na pata de ratos.”

Além disso, Sérgio estendeu seus horizontes em outras atividades ligadas à ciência. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE) e, também, fundador e presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FESBE). Além de um grande número de prêmios conquistados ao longo de sua carreira, Sérgio tornou-se membro da Academia Brasileira de Ciências. No campo da pesquisa, dentre muitas coisas, destaca-se a descoberta do BPF (Fator Potenciador da Bradicinina), substância essa presente no veneno daBothrops jararaca e que se trata de um peptídeo que deu origem a alguns dos atuais remédios para controle da pressão arterial. Ainda, é reconhecido internacionalmente por sua contribuição na área de analgésicos e anti-inflamatórios.

Há mais de meio século casado com Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, a qual é docente emérita da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP, o casal tem três filhos. Além desses filhos naturais, Sérgio possui os filhos científicos que ganhou ao longo de sua carreira. Foi orientador de, ao menos, 28 mestres e 25 doutores, além de um sem número de alunos de iniciação científica e pós-doutorados, os quais estão espalhados por diversas instituições de ensino de destaque, tanto no Brasil quanto no exterior.

Mas, e o DOL? Onde fica na história de vida do tal de Sérgio Ferreira?

Vamos voltar ao começo… Trabalho no mesmo departamento que o Sérgio. Certa vez, alguém fofocou pra ele que eu, além de trabalhar com o financeiro do departamento, tinha formação em informática e também dava meus “pulos” nessa área. Isso me aproximou muito do Sérgio, pois ele sempre tinha alguma ideia maluca que queria desenvolver no computador. Para situar como era a coisa, houve uma época em que trabalhávamos na edição de uma revista aqui em Ribeirão Preto, chamada “O Terceiro Berro”, cujo editor-chefe era ele. Mas essa é outra história, deixa pra lá. Nessa mesma época do “Berro”, Sérgio virou para mim certo dia e disse: “Professor, estou conversando com meus alunos e vamos fazer uma revista eletrônica!”. Olhei para ele e levantei apenas uma sobrancelha (como eu sempre fazia quando ele vinha com suas ideias, pois sabia que iria sobrar pra mim). “Igual ao Berro?” – questionei. “Não, será de notícias relacionadas ao tema dor e vamos colocar só na internet. Você vai fazer essa parte!” – (não comentei que iria sobrar pra mim?). E ai começou a correria…

A ideia era fazer uma espécie de revista eletrônica com direcionamento para profissionais da área de dor e que fosse, também, de interesse geral para o leitor comum. Essa compilação de informações seria mensal, a qual geraria um informativo no site do DOL. Além disso, essa mesma compilação seria enviada na forma de um boletim (similar aos tabloides antigos) para o e-mail de pessoas ligadas ao tema. Para isso, Sérgio reuniu seus alunos de pós-graduação e, em reuniões semanais, cada um levava uma publicação, notícia, ou algo relacionado com o tema dor, que é, até hoje, a linha de pesquisa de Sérgio na Faculdade de Medicina. Todo material da semana era discutido nas reuniões, analisado e debatido. Se o grupo achasse que o material era pertinente à temática do DOL, relevante e de interesse geral, era incluído para publicação no boletim. A finalidade básica do DOL era transmitir a informação selecionada e condensada, levando-a até o leitor em textos de fácil compreensão. O projeto tinha uma extensa finalidade didática para os membros que o elaboravam, pois exigia dos mesmos uma leitura apurada e uma análise crítica e analítica do trabalho sobre o qual estavam escrevendo, para que a transmissão fosse claramente feita e, posteriormente, compreendida pelo leitor. Os chamados “alertas”, que compunham juntamente com o editorial a edição mensal, eram formados a partir de um título condensado e um subtítulo chamativo para a notícia, nomeado por Sérgio de “gancho do alerta”.

Além dos alunos, compunham o grupo outras pessoas do departamento, tais como o Prof. Wiliam Alves do Prado, Fabíola Leslie Antunes Cardoso Mestriner, Ieda Regina dos Santos, Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento, Thiago Mattar Cunha, Luiz Fernando Ferrari, Joice Maria da Cunha, dentre muitos outros, além de alguns colaboradores externos. Por ser formado em sua maioria por alunos, a rotatividade de pessoal era (e ainda é) constante, pois aqueles que encerram suas atividades e mudam de local são substituídos pelos novos que entram, embora alguns dos membros antigos continuem colaborando mesmo longe. Parte dessa história dos membros foi contada em nosso editorial intitulado “100”, elaborado quando o DOL chegou à sua centésima edição mensal e que pode ser acessado em nossa seção de editoriais antigos.

O DOL possui em seu site diversas seções, com assuntos agrupados por similaridade. Três seções se destacam das demais e são motivo de discussão mensal: o editorial, a divulgação científica e a ciência e tecnologia.

editorial sempre traz um tema de maior impacto que é explorado em detalhes. O grupo define o assunto em reunião, sempre verificando o que está em destaque no momento. Em certos casos, o editorial abordou assuntos grandes, que foram divididos em partes e publicados sequencialmente. Em outros casos, há assuntos que são revisitados e atualizados.

Já as seções de divulgação científica e ciência e tecnologia compõem o que chamamos de alertas, que são resumos sobre as notícias que o grupo considerou relevantes para publicação. Em divulgação científica são publicados assuntos de ordem mais geral e interesse para o público comum, inclusive em linguagem mais acessível. Em ciência e tecnologia são abordados assuntos com cunho um pouco mais científico e voltado para público mais específico.

Decidir qual seria o logotipo para representar o DOL foi um parto, e daqueles bem complicados! Um monte de gente palpitando… Algumas ideias legais e outras bem doidas. Era difícil chegar a alguma conclusão. Testamos uns dois ou três desenhos antes de chegar nesse que hoje lá está. Uma das ideias iniciais foi minha e perdurou por um tempo. Mas, o Sérgio queria movimento no logotipo… E ai a tal da minha ideia foi para o espaço… Vamos nós, então, fazer animação na internet, baseados nos desenhos debatidos em reunião (ou fora dela, às vezes). Em certas ocasiões, o resultado era algo que não dá para contar… Por fim, depois de muito bate-boca, decidimos pelo simples, ou seja, apenas escrevendo a sigla do boletim (DOL = Dor On Line), onde a letra do meio (“O”) seria na cor vermelha e sobreposta parcialmente pelas outras duas letras (“D” e “L”), indicando a presença de dor. Pegou, ficou legal e perdura até hoje…

Mais recentemente, dois membros do DOL tornaram-se docentes na Universidade de Brasília (UnB). Paulo Barboni e Mani Indiana, ex-alunos de Sérgio e hoje casados, movimentam desde então um grupo de discussão do DOL na UnB de Ceilândia. Formado basicamente por alunos de iniciação científica, Paulo transformou o grupo em um projeto de extensão e ação contínua, que é um conjunto de ações processuais e contínuas de caráter educativo, social, cultural, científico e tecnológico. Esse “braço” do DOL foi o primeiro, estamos tentando inserir outros em novos locais. Recentemente, a Profa. Djane Duarte, também ex-aluna de Sérgio, juntou forças ao grupo da UnB com Paulo e Mani. Ainda, Paulo é o responsável pela editoração científica de todo o material que compõe cada boletim mensal e participa das reuniões semanais por intermédio de meios computacionais.

Hoje, além do que já foi citado, o DOL faz parte de duas disciplinas oferecidas pela Pós-graduação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, designadas por RFA-5776 – “Revisão e Discussão da Literatura Experimental e Clínica Atual Sobre Dor e Analgesia I” e RFA-5777 – “Revisão e Discussão da Literatura Experimental e Clínica Atual Sobre Dor e Analgesia II”. As disciplinas acontecem concomitantemente com as nossas reuniões de pauta semanais e os alunos matriculados podem participar da formulação e discussão.

Também expandimos nossos horizontes na internet, com a criação da página do DOL no Facebook, uma nova porta que encontramos para divulgar o trabalho e o conteúdo de nosso grupo. A edição do mês é publicada, notícia a notícia, durante todo o mês corrente com links que remetem para o alerta completo no site do DOL.

Quanto ao conteúdo publicado no boletim eletrônico e no site, eles são acessados em sua grande parte no Brasil. Porém, temos visitas vindas dos Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, Portugal, França, China, Itália e Japão, dentre outros. Os temas mais procurados e/ou acessados são “Dor inflamatória”, “Nociceptores”, “Compreendendo a dor”, “Citocinas”, “Alodinia”, “Osteoartrites”, “Enxaqueca” e “Neurônios”.

Hoje o DOL, de um jeito ou de outro, caminha… Criou vida própria e nós “tocamos” o projeto com prazer, por puro idealismo, mas sempre mantendo a mesma preocupação com o que é publicado. E a edição vai ao ar todo mês. Sempre tem um ou outro que aparece para compor o grupo, ou a gente se vira pela internet mesmo. Mas as discussões acontecem e a coisa flui.

Sempre brinco com Sérgio dizendo que nós dois somos as duas únicas coisas que existem no DOL desde seu primeiro suspiro… Muitos vieram e se foram, outros vieram, ficaram e estão aqui até hoje… E assim, a ideia de Sérgio Ferreira de criar um mecanismo de divulgação de notícias sobre dor está ai… E acho que ele, de uma forma ou de outra, alcançou seu objetivo primário ao criar esse projeto, veiculando conhecimento, criando no grupo o estímulo pela busca da informação e tornando-a acessível ao público geral.

“De derrota em derrota a gente chega lá!” – é o que ele sempre diz…

E assim, comemorando o começo de nossos 15 anos de vida (e parece que foi outro dia que isso tudo começou), encerro aqui esse editorial, deixando em nome de toda Equipe DOL nossas cordiais saudações a você leitor, que nos acompanha nessa jornada! E até a edição 200, quando voltaremos para contar mais histórias…

Referências:

  • Sérgio Henrique Ferreira e Maria Clotilde Rosseti-Ferreira – Opostos e Complementares, Revista Ciência Hoje, março de 2014;

  • Revista Médicos, ano 1, número 5, dezembro de 1998, editada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo

 

Fonte

 

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