“Memória” Inata – Será?

Dentre as características que diferenciam a imunidade inata da adaptativa temos que a primeira, além de reagir de maneira instantânea no encontro com o antígeno, não apresenta memória imunológica. Por outro lado, na imunidade adaptativa o reconhecimento do antígeno é mais especifico e há geração de memória. No entanto, este dogma vem sendo colocado a baixo nas últimas décadas (Netea, 2013). Crescentes evidências sugerem que os mecanismos de proteção envolvidos em processos de reinfecção ou de proteção cruzada não podem ser atribuídos exclusivamente à resposta imune adaptativa, mas também empregam um elevado estado de ativação da resposta imune inata. Neste contexto, os macrófagos, assim como as células NK, podem apresentar um tipo de “memória” imunológica (Netea et al., 2011), que ocorre em momentos de reinfecção pelo mesmo ou por um patógeno diferente, chamada de imunidade inata “treinada”.
Chen e colaboradores (2014) demonstraram que, em um modelo de infecção por Nippostrongylus brasiliensis, os macrófagos residentes no tecido pulmonar são as células efetoras que medeiam à resposta protetora contra o parasita em um processo de reinfecção ocorrido 30 dias após a infecção primária. Estes macrófagos são “primados/treinados” durante a primeira infecção, desenvolvem um perfil de ativação do tipo M2 (relacionado com a resposta do tipo 2 classicamente descrita para a infecção helmíntica) e adquirem a capacidade de iniciar, no pulmão, o combate as larvas de maneira mais eficaz em infecções subsequentes. Isto sugere que estas células podem desenvolver algum tipo de “memória” imunológica ou manutenção de um estado pré-ativado que permite uma resposta mais efetiva, mesmo após períodos tão longos desde o primeiro estímulo, como os 3 meses utilizados no protocolo deste estudo. Demonstrou-se também que a polarização desses macrófagos e sua atividade anti-helmíntica são dependentes de sua interação com neutrófilos. Estas últimas, também estimuladas no contexto da infecção pelo N. brasiliensis, adquirem um fenótipo de ativação do tipo N2, capaz de polarizar os macrófagos permitindo melhor controle do parasita durante a reestimulação em infecções secundárias. Esse potencial dos neutrófilos em polarizar os macrófagos para um fenótipo protetor se desenvolve durante a infecção primária. Neste caso, os neutrófilos N2 através da secreção de fatores solúveis, em especial a IL-13, conseguem agir sobre o macrófago tecidual, promover a sua diferenciação em M2 e a sua resposta efetora. Sendo assim, o neutrófilo aparece como uma célula importante durante a infecção primária, induzindo alterações no fenótipo dos macrófagos que são mantidas por até 30 dias após a infecção primária. No entanto, no momento da infecção secundária, os macrófagos “treinados” durante a infecção primária são capazes de manter um status de ativação que culmina com a proteção o hospedeiro.

Figura post

Após infectar o hospedeiro pela pele, o N. brasiliensis migra até o pulmão ainda num estágio inicial de infecção. A presença do verme neste tecido induz o recrutamento de neutrófilos, principalmente durante a infecção primária. Concomitantemente há o desenvolvimento da imunidade do tipo Th2, classicamente associada ao controle de infecções helmínticas. Esse ambiente induz a polarização dos neutrófilos para o fenótipo N2, que por sua vez, através da secreção de IL-13, são capazes de polarizar os macrófagos também à um fenótipo M2. Além disso, essa interação entre os neutrófilos e os macrófagos durante a infecção primária é capaz de gerar uma característica de vida longa a esses macrófagos. Desse modo, no momento de uma infecção secundária, essas células, que mantém um estado basal de ativação, são capazes de responder ativamente contra o N. brasiliensis proporcionando a defesa do hospedeiro.

 

Post de Andressa Fisch e Gisele Ap. Locachevic (FMRP-USP/IBA)

Post original por João Santana Silva no SBlogI

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