Abordagem transdisciplinar da equipe de saúde para manejo da dor

Mani Indiana Funez *

Este editorial foi confeccionado durante as atividades da disciplina Bases Moleculares e Celulares do Processo Saúde-Doença, Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde, Faculdade UnB Ceilândia, Universidade de Brasília. Responsáveis: Profa Mani Funez, Aluna Especial Priscila da Conceição Quaresma (Enfermeira), Mestrando Anderson Rodrigues Araujo Vieira (Biólogo), Aluna Especial Tayse Tâmara da Paixão Duarte (Enfermeira), Doutorando Luiz Sinésio Silva Neto (Fisioterapeuta), Aluna Especial Patrícia Barbosa Freire (Nutricionista).

A expressão clínica da dor é um fenômeno altamente complexo que envolve a interação de fatores e processos bioquímicos, sociais, emocionais e culturais. Quando aguda, geralmente não permanece por mais de 6 meses e os sintomas cessam quando a causa é tratada. Por outro lado, a dor crônica é uma condição persistente, que não reduz com tempo e muitas vezes responde pouco a intervenções específicas.

A dor tem sido considerada o quinto sinal vital desde a década de 1990 e o seu manejo é visto como um direito humano básico. A evolução do seu tratamento reflete influências históricas, sociais, culturais, éticas e religiosas; além de inovações médicas e farmacológicas e diferentes concepções de tratamento por parte da equipe de saúde. Além disso, os avanços farmacológicos e outros tratamentos da dor aguda, crônica e neuropática associados a influências físicas, emocionais, sociais, culturais, espirituais e financeiras exigiram abordagens multidisciplinares.

Quando se considera a abordagem de equipes para o tratamento e reabilitação de condições de saúde, têm sido apresentadas na literatura três tipos: a multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar. Cada modelo tem vantagens distintas, desafios e implicações para a avaliação e definição de metas para o tratamento.

A abordagem multidisciplinar consiste na atuação de várias áreas profissionais no cuidado ao paciente, porém esses profissionais atuam de forma independente, compartilham o mínimo de informação, podendo apresentar expectativas e objetivos diferentes ou contraditórios, o que pode ser confuso para os pacientes e suas famílias.

Já a equipe interdisciplinar compartilha o mesmo objetivo, há um maior grau de colaboração fomentando os objetivos específicos de cada área. Os desafios deste modelo incluem a necessidade de uma comunicação aberta, flexível, colaborativa e respeitosa entre os profissionais na resolução de conflitos e prioridades. Neste sentido, a atuação destas equipes tem se mostrado mais eficaz quanto a melhora da qualidade de vida do paciente, melhor resultado funcional, menor tempo de internação e menores custos.

Uma evolução do modelo interdisciplinar é a abordagem transdisciplinar. Embora haja semelhanças entre a abordagem interdisciplinar e transdisciplinar em termos de comunicação frequente entre os membros da equipe, existem diferenças quanto ao papel de cada área profissional. Na última, os membros da equipe possuem menor delimitação de funções, cada membro assume a responsabilidade pelo paciente como um todo e a intervenção específica não é a única responsabilidade de um profissional.

A abordagem da equipe transdisciplinar para o manejo da dor enfatiza a aprendizagem mútua, formação e educação, além de uma troca flexível de informações entre os profissionais, incluindo o potencial para conflitos. É fundamental o estabelecimento de um diálogo que reconheça e respeite estas preocupações para facilitar a partilha e manutenção dos objetivos de tratamento.

O modelo promove e fortalece os sistemas de apoio ao paciente e à família dentro de um contexto cultural. Promove ainda o respeito mútuo e a confiança entre os membros da equipe e uma forte valorização do conhecimento de cada área, suas habilidades e conhecimentos. Em síntese, a abordagem transdisciplinar inclui além da equipe diretamente envolvida, a família e outros profissionais de saúde para a elaboração dos objetivos de tratamento.

Ainda mais importante é a existência e valorização de coerência entre os objetivos do paciente e da equipe. Por exemplo, o objetivo da equipe é que um determinado paciente caminhe com auxílio de um andador à fim de reduzir o nível da dor e os riscos de queda, no entanto o objetivo deste paciente é simplesmente sentir-se independente, caminhar sem dor e sem um dispositivo auxiliar. Assim uma discussão colaborativa, respeitosa e realista precisa ocorrer, levando em consideração a segurança sem deixar de abordar os desejos do paciente.

Outro ponto relevante na abordagem transdisciplinar é entender que o aspecto cultural do paciente é necessário para melhor prevenir, avaliar, tratar e entender a dor de todos os tipos. A consideração das habilidades cognitivas, linguagem, educação, fatores ambientais, financeiros, crenças culturais, necessidades sociais, emocionais, espirituais e conceitos do sistema familiar, oferece uma oportunidade para ver o paciente em um contexto mais amplo, levando a uma diminuição das disparidades de saúde. Se os profissionais de saúde não explorarem tais fatores, a gestão da doença e da dor pode resultar em readmissões desnecessárias e resultados insatisfatórios.

Os benefícios de uma abordagem transdisciplinar para o atendimento ao paciente são bem documentados na literatura quanto à reabilitação, programas de intervenção precoce e clínicas de base comunitária. Ao fazer a transição de uma abordagem interdisciplinar para uma abordagem de equipe transdisciplinar no manejo da dor, os profissionais de saúde precisam considerar os pontos fortes e limitações da abordagem transdisciplinar, bem como as aplicações práticas, que são altamente dependentes das possibilidades do serviço de saúde.

Alguns desafios são encontrados para a prática deste modelo, como por exemplo a preparação educacional transdisciplinar dos profissionais que tem sido limitada. A equipe de profissionais que prestam assistência ao paciente precisa de apoio educacional e organizacional para expandir suas perspectivas e se tornar mais especializada. A abordagem transdisciplinar para o manejo da dor deve ser integrada em todos os cuidados de saúde.

Pesquisas futuras devem se concentrar no impacto dos diferentes modelos de equipe no manejo da dor em termos de satisfação de pacientes e equipe, bem como nos resultados de curto e longo prazo. Embora tenha havido avanços no aspecto manejo da dor, há uma necessidade de pesquisas transdisciplinares para abordar a complexidade das experiências de dor.

Referência: Gordon RM, Corcoran JR, Bartley-Daniele P, Sklenar D, Sutton PR, Cartwright F. A transdisciplinary team approach to pain management in inpatient health care settings. Pain Manag Nurs. 2014 15(1):426-35.

Professora Adjunta na área de Enfermagem e Farmacologia da Faculdade de Ceilândia – Universidade de Brasília

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