Dor

Encontramos na literatura relatos de dor há mais de 2000 anos. Antes disso, as tribos primitivas referiam a dor como o resultado da inserção no corpo humano de objetos, ou fluidos mágicos externos, ou até mesmo demônios.

Quatro a dois mil anos AC., os Egípcios, impressionados com a rede vascular, colocaram o coração como o centro de todas as sensações, inclusive da dor.

Apesar das contínuas evidências contrárias, a grande autoridade de Aristóteles fez com que o coração permanecesse como o centro da dor por mais de doze séculos. Coube a William Harvey (1578 – 1657) encerrar a concepção Aristoteliana, demonstrando que o coração naturalmente exposto do Earl of Montgomery era insensível ao toque.

A dor é uma experiência sensorial, com tonalidade afetiva desagradável, oposta ao prazer, induzida por um estímulo (nociceptivo) mecânico, térmico, químico, elétrico ou fisiopatológico. A esta sensação (nocicepção) está associada uma resposta neurovegetativa ou comportamental. Estas respostas são mais intensas ou mais rápidas quando o tecido está inflamado. A dor é um sintoma que protege nossa integridade física no ambiente em que vivemos e nos defende de agentes infecciosos ou nos avisa da ocorrência de distúrbios patológicos orgânicos através de nossos sistemas imunes inato e adaptativo.

Descartes (1596 – 1650) tinha uma visão mecanicista das sensações. Os estímulos sensitivos eram transmitidos ao cérebro por meio de cordões localizados no interior dos nervos, chegando aos ventrículos cerebrais e estimulando a glândula pineal, centro do sensorium e da alma. A dor ocorreria quando estes cordões fossem puxados com força suficiente para quebrá-los.

O conceito operacional é que dor é uma percepção desagradável de uma sensação nociceptiva. Nos animais analisamos a nocicepção, através de uma resposta reflexa, a qual não envolve cognição ou percepção.

A ativação do sistema nervoso central associado à dor inicia-se no nervo sensitivo periférico, chega à medula e sua distribuição depende da rede neural funcional. A rede mais simples implica pelo menos dois neurônios:
• Os neurônios primários periféricos associados à dor, quando de condução rápida, relacionam-se com o ambiente. Os de condução lenta relacionam-se com o próprio organismo;
• O neurônio sensitivo primário realiza sua primeira sinapse em regiões bem definidas (lâminas de Rexel), no corno posterior da medula. O impulso nervoso ascende para a parte basal do cérebro onde faz a segunda sinapse (relê talâmico). Os sinais podem se dirigir diretamente para o córtex ou inter-relacionarem-se com o sistema nervoso neurovegetativo (órgãos) e outros núcleos centrais (sistema límbico, amígdala etc.) que definem a tonalidade afetiva da dor (um dos sítios de ação farmacológica da morfina).
Atualmente, a interpretação (consciência) da experiência de sensação da dor é entendida como função cortical através de:
• áreas específicas associadas com sua detecção, localização e intensidade de estímulo (parietal anterior…);
• áreas corticais responsáveis pela interpretação (consciência) do processo doloroso (parietal posterior…).
Há um retardo dos sinais entre as áreas de detecção do estímulo doloroso e aquelas relacionadas com sua percepção (consciência).

Os estudos contemporâneos sugerem que os mecanismos envolvidos na gênese da dor aguda podem diferir dos mecanismos envolvidos na manutenção da dor crônica, embora muitas vezes o controle farmacológico para minimizá-las seja inicialmente semelhante.

Últimas Publicações