Homeopatia, dor e o Conselho de Pesquisa Médica e Saúde Nacional da Austrália

Camila Alves Areda *

Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento **

A homeopatia, criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1796) (2), é uma prática terapêutica que consiste da utilização de preparações de substâncias cujos efeitos, quando administrados em pessoas saudáveis, ocasionam as manifestações (sintomas, sinais clínicos, estados patológicos) do paciente tratado. Fundamenta-se, portanto, na Lei dos Semelhantes (Similia similibus curantur). Dois princípios guiam a prática homeopática. O primeiro, como dito acima, determina que um paciente com certos sinais e sintomas pode ser tratado com um medicamento homeopático, que produz estes sinais e sintomas em pacientes saudáveis. O segundo princípio diz que um medicamento homeopático retém sua atividade biológica depois de repetidas diluições e agitação veemente (dinamização), mesmo após diluições além do número de Avogadro (1). Uma concentração homeopática comum é a 12C (1 para 1024 ou 10−24), que tem cerca de 60% de probabilidade de conter pelo menos uma molécula do soluto original para cada mol deste utilizado no seu preparo.

Desde sua concepção(2), muito debate e controvérsia sobre esta prática terapêutica tem existido. Um exemplo foi o trabalho publicado pelo grupo do imunologista francês Dr. Jacques Benveniste, em Junho de 1988, no periódico Nature. O artigo intitulado Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE (3) demonstrava degranulação de basófilos por um anti-soro anti-IgE em concentração homeopática 60C! O artigo foi publicado com uma Editorial reservation por parte da Nature. Muitos leitores poderiam partilhar a incredulidade de muitos dos revisores do artigo. A sugestão de que a solução aquosa de um anticorpo poderia manter a habilidade de evocar uma resposta biológica mesmo depois de diluída a ponto de existir possibilidade negligenciável de existir uma única molécula de soluto na amostra vinha de encontro com os princípios homeopáticos. A Nature montou um grupo de investigadores independentes para verificar a reprodutibilidade dos experimentos. Um dos editores da revista assina o artigo High-dilution’ experiments: a delusion (4), em Julho de 1988, onde atribui ao viés interpretativo a culpa para os resultados errôneos apresentados pelo grupo de Benveniste [veja o editorial do DOL “O viés interpretativo e os anti-inflamatórios não-esteroidais” publicado em Dezembro de 2010]. Ele inclusive tinha financiamento de uma indústria homeopática…

Recentemente, o Conselho de Pesquisa Médica e Saúde Nacional da Austrália publicou (março de 2015) um artigo informacional sobre evidências na efetividade da homeopatia para o tratamento de condições de Saúde (5). Esta avaliação foi baseada em três pilares: um resumo de revisões sistemáticas publicadas; uma avaliação das informações fornecidas por grupos de interesse em homeopatia e público; e considerações de guias de prática clínica e relatórios governamentais sobre homeopatia em outros países. A avaliação das evidências utilizou métodos padronizados e aceitos para verificação da qualidade e confidência da evidência no tocante à eficiência da terapia em tratar condições de Saúde.

O trabalho é tácito em afirmar que não existe evidência confiável a partir de pesquisa em humanos de que a homeopatia é efetiva para tratar as diversas condições de Saúde consideradas. Não existe um estudo de boa qualidade, bem desenhado, com número suficiente de participantes para um resultado significativo que indique a homeopatia como causa de uma melhora na Saúde maior que o placebo ou uma melhora na Saúde igual ou maior que outro tratamento já reconhecido. Em relação à Dor, por exemplo, relatam que a homeopatia não é mais eficaz do que o placebo para o tratamento destas condições: Dor de cabeça e enxaqueca; dor muscular, dor derivada de procedimento dentário, dor de cirurgia ortopédica, fibromialgia, artrite reumatoide. Ainda, relatam que não há nenhuma evidência confiável de que a homeopatia produza efeito superior ao placebo para o tratamento destas condições: Lombalgia, osteoartrite, síndrome da agitação causada por dor pós-operatória.

Ao contrário do que ocorre na Austrália, no Brasil a homeopatia, e também a acupuntura, são especialidades médicas regulamentadas pelo Conselho Federal de Medicina. A homeopatia, por exemplo, é acessível à população há mais de 150 anos. O número de médicos homeopatas e o número de adeptos da homeopatia no Brasil é muito maior do que na Austrália. A regulamentação da Homeopatia no Brasil ocorreu em 1980 (Resolução nº 1000/80) e em 1990 pelo Conselho de Especialidades Médicas da Associação Médica Brasileira. A Associação Médica Homeopática Brasileira regula a emissão de títulos de especialistas por meio da exigência de formação em cursos credenciados, com carga horária de 1.200 horas. Em 2006 foi incluída, juntamente com a Acupuntura e Fitoterapia, como prática do Sistema Único de Saúde, Portaria 971. Entretanto, não é uma prática exclusiva do médico, sendo reconhecido pelo Ministério do Trabalho o Homeopata Não Médico. Esta profissão não tem ainda regulamentação, mas é uma prática permitida. É também uma prática incentivada pela Organização Mundial de Saúde, desde a convenção de Alma-Ata, que incentiva as práticas populares de Saúde, que sempre existiram principalmente em sociedades de regiões menos acessíveis.

Alguns dos argumentos utilizados pelos defensores da homeopatia a seu favor incluem a alegação de que muitas vezes a ciência, que vive de provas concretas, esquece-se de que os medicamentos alopáticos vendidos hoje tiveram seus estudos iniciados a partir do conhecimento popular. Segundo Paul Feyerabend, no seu livro Contra o Método (1977) (6), onde critica a não separação entre Estado e Ciência e a afirmativa atual de que tudo advêm de métodos científicos exatos, “A asserção de que não há conhecimento fora da ciência — extra scientiam nulla salus — nada mais é que outro e convenientíssimo conto de fadas. As tribos primitivas faziam classificações de animais e plantas mais minuciosas que as da zoologia e da botânica de nosso tempo; conheciam remédios cuja eficácia espanta os médicos (e a indústria farmacêutica já aqui fareja uma nova fonte de lucros); dispunham de meios de influir sobre os membros do grupo que a ciência por longo tempo considerou inexistentes (vodu); resolviam difíceis problemas por meios ainda não perfeitamente entendidos (construção de pirâmides, viagem dos polinésios)”.

Podemos fazer alguns questionamentos em relação ao que se observa após tratamento com homeopatia ou placebo:

  • Os artigos que estudam o efeito placebo não são conclusivos, ou seja, não foi provado que existe efeito placebo. Assim, como atribuir as curas ou melhoras de doenças e sintomas proporcionadas pelo uso do medicamento homeopático ao efeito placebo? Para complicar ainda mais, veja o item 7 da Sessão “Ciência e tecnologia” dessa edição: Genética e o efeito placebo: o placeboma;

  • Homeopatia apresenta bons resultados em bebês e crianças, que a consomem misturadas na água ou como “balinha”. Ou seja, sem a consciência que se está tomando um medicamento, será que há o efeito placebo? Placeboma?

  • Outro ponto é o uso em animais. Muitos veterinários adotam a homeopatia com resultados positivos em animais. Estes entenderiam o efeito placebo? A homeopatia é dada na água, na ração, como o animal saberia que há algo de diferente? Muitos criadores de gado leiteiro empregam a homeopatia. Em um meio que os antibióticos e produtos para estimular a produção de leite são tão comuns e apresentam bons retornos, principalmente financeiros, abririam mão do uso desses produtos e do lucro se não tivesse tido resultado positivos com a homeopatia?

  • O uso da homeopatia na agricultura também apresenta resultados, sendo inclusive liberado pelo Ministério da Agricultura, Portaria 007 de 17/01/1999, em substituição a agrotóxicos, defensivos agrícolas e antibióticos que podem causar problemas à Saúde humana. Seriam os resultados imaginários? Novamente olhando pelo aspecto financeiro, os agricultores, grandes produtores de alimentos e grãos deixariam de usar os agrotóxicos, com resultados garantidos, para investir na homeopatia?

  • Se a cura é pelo efeito placebo, isso significa que muitas doenças que tratamos com alopatia, não precisam de tratamento? Ou seja, o organismo mesmo daria conta de voltar ao estado natural? Isto pode ser verdade para algumas viroses, pois após alguns dias o organismo volta ao estado normal, e não necessita ou não há medicamentos capazes de levar à cura, apenas alívio dos sintomas. Considere também, novamente, o “Placeboma”;

  • Como questionar a falta de estudos clínicos para acompanhamento do paciente com medicamentos homeopáticos se essa é uma prática individual? Ao contrário da alopatia, que ministro o mesmo medicamento a todos os pacientes, na homeopatia, para uma mesma doença, posso usar medicamentos completamente diferentes. Tal fato inviabiliza o teste clínico em massa para a homeopatia;

  • Além disso, mesmo que se estabeleça um protocolo clínico capaz de avaliar o tratamento homeopático considerando suas particularidades, a realização de um estudo clínico com muitos pacientes e multicêntricos (Estudo Clínico Fase III), envolve um grande montante de recursos financeiros. No caso dos medicamentos alopáticos, estes estudos são patrocinados pelas grandes Indústrias Farmacêuticas que, posteriormente à aprovação do medicamento, exploram o mercado com exclusividade por 10 anos em média. No caso do medicamento homeopático, justamente pela especificidade dos tratamentos, são, em geral, produzidos em farmácias de manipulação. Assim, quem financiaria os estudos clínicos?

Com certeza as polêmicas em torno deste assunto continuarão a render muito debate. Mais do que uma crítica, o trabalho do Conselho australiano mostra a necessidade que terapias alternativas têm de ensaios clínicos bem conduzidos para o devido suporte científico de sua efetividade.

Referências:

1. Ernst E. A systematic review of systematic reviews of homeopathy. Br J Clin Pharmacol [Internet]. 2002 Dec [cited 2015 May 18];54(6):577–82. Available from: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1874503&tool=pmcentrez&rendertype=abstract

2. Hahnemann S. The Homœopathic Medical Doctrine: Or, “Organon of the Healing Art” (Google eBook) [Internet]. W.F. Wakeman; 1833 [cited 2015 May 18]. 332 p. Available from: https://books.google.com/books?id=EnEFAAAAQAAJ&pgis=1

3. Davenas E, Beauvais F, Amara J, Oberbaum M, Robinzon B, Miadonna A, et al. Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE. Nature [Internet]. 1988 Jun 30 [cited 2015 May 16];333(6176):816–8. Available from: http://dx.doi.org/10.1038/333816a0

4. Maddox J, Randi J, Stewart WW. “High-dilution” experiments a delusion. Nature [Internet]. Nature Publishing Group; 1988 Jul 28 [cited 2015 May 17];334(6180):287–91. Available from: http://www.nature.com/nature/journal/v334/n6180/pdf/334287a0.pdf

5. NHMRC Statement on Homeopathy and NHMRC Information Paper – Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions | National Health and Medical Research Council [Internet]. [cited 2015 May 16]. Available from: https://www.nhmrc.gov.au/guidelines-publications/cam02

6. Feyerabend P. Contra o método. Segunda. Editora Unesp; 2011.


* Graduada em Farmácia Bioquímica pela Universidade de São Paulo, Doutora em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto. Atualmente é professora adjunta de Economia e Gestão Farmacêutica, Farmacotécnica e Deontologia na Universidade de Brasília, Campus Ceilândia.

** Bacharel em Química com Atribuições Tecnológicas, Mestre e Doutor em Ciências, Professor Adjunto de Química na FCE-UNB

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