Dor neuropática e sua comorbidade com a depressão

Renato Leonardo de Freitas *

A dor neuropática (DN) é uma condição comum na clínica. Faz parte de várias síndromes neurológicas e representa cerca de 25% dos pacientes atendidos em grandes clínicas de dor. Estima-se que a prevalência de dor neuropática na população seja cerca de 7%-8%. A dor neuropática ocorre devido a traumas acidentais, procedimentos cirúrgicos e doenças que afetam o sistema nervoso central (SNC) ou periférico. Os mecanismos relacionados à dor neuropática não são completamente esclarecidos, mas experimentos em animais de laboratório indicam o envolvimento da sensibilização de neurônios aferentes periféricos e centrais.

O termo comorbidade é originário do latim, sendo composto pelo prefixo “cum”, que significa contigüidade, correlação, companhia, e pela palavra morbidade, originada de “morbus”, que designa estado patológico ou doença. Assim, deve ser utilizado apenas para descrever a coexistência de transtornos ou doenças, não de sintomas. A dor neuropática afeta em muitas maneiras a vida do paciente; sendo assim, cada aspecto de sua vida passa a ser associado a uma resposta mal adaptada e desagradável. Mesmo que a suposta lesão inicial que leva à dor crônica pareça ser simples, os resultados e consequências desta patologia podem estar relacionados a múltiplos fatores, como sociasi, econômicos, ambientais e, principalmente, com fatores emocionais.

A depressão é a comorbidade mais comum entre dor crônica e transtornos inseridos no “O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM)”. Alguns estudos relatam uma prevalência da depressão em 80% dos pacientes com dor crônica. Esta comorbidade é complexa e os pacientes nesta situação relatam níveis mais elevados de dor do que os pacientes que não têm depressão. A depressão aumenta o comprometimento associado à dor crônica e existem relatos de que há uma probabilidade muito baixa de sucesso no tratamento da dor neuropática se a depressão não for tratada também.

Evidências sugerem que a dor crônica pode ser considerada uma condição inescapável de estresse crônico e, portanto, poderia ser responsável pela origem da depressão. Corroborando esta sugestão, estudos tanto em animais (pré-clínicos) quanto em humanos (clínicos) demonstram que a dor neuropática afeta o eixo neuroendócrino hipotálamo-pituitaria-adrenal (HPA), resultando em alterações comportamentais realcionadas a emoções. Outra hipótese para a depressão induzida pela dor crônica baseia-se no recrutamento de substratos neurais comuns. A proposta é que regiões específicas do SNC que são responsáveis pelo processamento da dor também estão envolvidas no processamento das emoções. Desta forma, alterações nessas estruturas induzidas pela dor afetariam o processamento das informações afetivas, resultando em desordens psiquiátricas. Dentre tais estruturas cerebrais, destacam-se o córtex cingulado anterior (CCA) e o córtex insular (CI). O CCA interliga os neurônios do córtex pré-frontal, do tálamo e do complexo amígdaloide e funciona como um relé, integrando funções cognitivas, emocionais e autonômicas exercidas por tais estruturas. Exames clínicos de neuroimagem mostram o recrutamento do CCA durante o processamento de dor e estudos pré-clínicos têm associado os neurônios do CCA à elaboração de comportamento aversivo durante experiência nociceptiva. O CI é outra área cortical de interesse, uma vez que estudos em humanos e animais têm demonstrado também o seu envolvimento em respostas de dor aguda e crônica e respostas emocionais.

De forma geral, os resultados de estudos pré-clínicos são surpreendentemente consistentes com as observações clínicas, indicando que de fato parece existir uma interação recíproca entre dor e depressão. Considerando estas evidências com abordagens multidiciplinares, estudos futuros devem começar a explorar os mecanismos neurais e moleculares subjacentes a esta relação recíproca, o que pode eventualmente levar a melhores e mais refinadas estratégias no tratamento da comorbidade entre dor neuropática e depressão.

Referências:

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* Biólogo, Pós-doutorando do Departamento de Farmacologia da FMRP-USP

FONTE