Afinal, quem é John J. Bonica?

Miriam das Dores Mendes Fonseca *

Em uma rápida consulta no meu laboratório, que trabalha majoritariamente com dor, perguntei aos meus colegas: quem foi John J. Bonica? E ninguém soube me responder! Não me assustei, mesmo porque eu também não sabia da importância desse grande homem, e só questionei meus colegas ao descobrir que se tratava de um dos maiores e mais importantes especialistas em dor crônica, que dedicou sua vida em prol da saúde de outrem. Assim, comecei a refletir sobre o quanto somos negligentes em dar importância a quem realmente é importante.

Bonica nasceu na Itália, perto da Sicília, mas a sua família mudou-se para os Estados Unidos em 1927, quando ele tinha onze anos. A vida não era fácil em Nova Iorque para um menino que não falava inglês; ficou ainda pior quando seu pai morreu quatro anos mais tarde. Assim, John passou a sustentar sua família vendendo jornais e fazendo bicos após o colégio. Ele tinha um sonho de se tornar médico, mas até aquele momento esse sonho parecia impossível, pois tudo conspirava contra esse sonho. Entretanto, Bonica sempre se esforçou e foi um excelente aluno desde o colégio. Conseguiu ingressar na Escola de Medicina da Universidade de Marquette e se graduar médico em 1942. Pouco tempo após ingressar na faculdade, casou-se com Emma Baldetti, a quem cortejou por 6 anos.

Quando Bonica entrou na faculdade, ele precisava se manter além de ajudar sua família. Para isto, se tornou profissional em luta livre, esporte que já praticava desde o ensino médio. Assim, ele participava de lutas durante à noite e finais de semana, usando o pseudônimo de “Touro Walker” ou “Masked Marvel”, no intuito de manter em segredo essa sua dupla jornada e preservar sua carreira na medicina. Mas, este segredo veio à tona quando ele foi coroado campeão mundial na categoria peso-pesado.

No início de sua brilhante carreira médica, Bonica fez seus estágios obrigatórios e, em seguida, residência em anestesiologia no Hospital St. Vincent em Nova Iorque. Em 1944, no período da segunda guerra mundial, foi enviado para Madigan, Hospital do Exército em Washington e prontamente se tornou chefe da anestesiologia. E mesmo com tantos afazeres ele complementava sua renda com lutas livres.

Foi durante a Segunda Guerra Mundial, que John Bonica começou a perceber a necessidade de uma nova abordagem para tratar pacientes com dor crônica. No hospital do exército, ele recebeu muitos pacientes que sofriam de dor no membro fantasma e outras síndromes pós-amputação, como dor muscular, lesões músculo-esqueléticas e uma variedade de transtornos neurológicos associados à dor, que ele não conseguia entender. Naquela época, já havia alguns estudos relatando o tratamento da dor pelo bloqueio de vias nervosas, com aplicação de anestésicos locais. A fim de tentar ajudar os soldados sob seus cuidados Bonica aderiu à esta nova técnica. Entretanto, até aquele momento, ele não tinha tido experiência com tais procedimentos e, então, fez uma busca na literatura e adquiriu o máximo de conhecimento que pôde. Como bom autodidata, ele aprendeu sozinho técnicas de anestesia local e, indo além, aprendeu técnicas para anestesia cirúrgica.

Ao promover bloqueio de nervos em pacientes com dor, ele notou que os pacientes com tipos simples de dor respondiam à terapia, mas os pacientes com problemas de dor crônica, mais complexos, não respondiam. De repente ele percebeu que, como a maioria dos outros médicos, ele não conhecia os princípios básicos envolvidos na complexidade da dor crônica. Frustrado por não encontrar informações que precisava na literatura, Bonica sugeriu para vários colegas em várias áreas da medicina – neurologia, neurocirurgia, ortopedia, psiquiatria – para que cada um examinasse os pacientes e todos se reunissem para comparar notas em reuniões semanais.

Assim, essa foi a primeira vez que a dor teve uma abordagem multidisciplinar, e essa abordagem é feita até hoje, no diagnóstico e tratamento dos pacientes com dor crônica. Até o final de sua passagem pelo exército, Bonica estava convencido de que a abordagem multidisciplinar para o manejo da dor era o caminho para o seu tratamento e mais investigações eram necessárias para a compreensão desta patologia tão complexa. Além disso, ele sentia falta de um livro sobre dor, mesmo que este contivesse informações básicas. Portanto, depois da guerra, ele se propôs a fazer algo sobre isso.

Além da sua participação no exército, outra experiência vivida por ele o fez se dedicar mais aos estudos sobre dor, quando sua esposa, anestesiada com éter, quase veio à óbito durante o parto do seu primeiro filho. Com esse episódio, Bonica projetou uma nova missão – a introdução de técnicas anestésicas regionais para anestesia obstétrica. Após isso, Emma foi uma das primeiras mulheres a ser submetida à anestesia epidural para o nascimento de seu segundo filho.

Após o exército, Bonica foi para Tacoma trabalhar no Hospital Geral e começou a colocar suas ideias em prática. Neste hospital ele estabeleceu um grupo multidisciplinar para lidar com pacientes com dor. Até 1950, ele tinha reunido registros médicos sobre dor de mais de 2.000 pacientes civis e militares, que ele havia tratado isoladamente ou em colaboração com outros médicos. Ainda, após revisar a literatura mundial sobre o tratamento da dor, começou a escrever seu primeiro livro, “The Management of Pain”, que foi publicado pela primeira vez 1953, e aborda o diagnóstico e tratamento de pacientes com dor. Este livro já foi re-editado algumas vezes e traduzido para seis idiomas. Ele é considerado atualmente a bíblia para o estudo da dor crônica, um texto clássico e de leitura obrigatória para quem trabalha com dor.

Em 1960, Bonica tornou-se o presidente do Departamento de anestesiologia da Universidade de Washington em Seattle, ficando no cargo até 1978. Como professor emérito continuou a trabalhar até sua aposentadoria em 1992. E ele não parou de trabalhar em tempo integral até poucos meses antes de sua morte. Durante seu mandato na Universidade de Washington, criou nesta universidade a residência em anestesiologia e tornou seu departamento uma referência mundial em pesquisa, ensino e programas clínicos em anestesiologia. Os estagiários vinham de muitos países ao redor do mundo e de todos os Estados Unidos para se especializar no departamento chefiado por Bonica. Uma das primeiras coisas que fez na Universidade de Washington, em colaboração com outros profissionais, foi implantar uma clínica de dor multidisciplinar. Este grupo de profissionais da saúde e pesquisadores reunia-se regularmente para discutir problemas apresentados pelos pacientes com dor crônica e para delinear estratégias de tratamento eficazes. Este programa atraiu jovens anestesiologistas interessados no tratamento da dor para a Universidade de Washington, estabelecendo, assim, em meados da década de 1970, o primeiro programa de formação médica para o tratamento da dor. Assim, a Universidade criou o centro multidisciplinar de dor em 1978.

Bonica se esforçou muito no intuito de tornar o tratamento da dor, um item muito importante nos cuidados de saúde de um paciente hospitalizado e um tema prioritário a ser pesquisado, o que até então era negligenciado pela classe médica. Ele pressionou os congressistas, visitou governos e representantes da saúde e esperou o momento certo para fazer o seu maior movimento – a criação de uma organização internacional dedicada à pesquisa e tratamento da dor. Assim, em 1973, após elaborar o programa, convidou pessoas importantes de várias partes do mundo para um simpósio internacional sobre dor. Assim, a boa ciência, fascinantes “insights” clínicos e a constatação de que havia pessoas no mundo todo que compartilhavam do seu sonho, deu mais ânimo à Bonica e, desse encontro, surgiu a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) e a revista Pain. Obviamente, Bonica foi o primeiro presidente da IASP.

Bonica determinou que a IASP teria que ser interdisciplinar. Segundo ele, a IASP não seria apenas um grupo de prestadores de serviços médicos, seria uma sociedade para coexistir enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos e cientistas. Todos os profissionais interessados em minimizar a dor e o sofrimento de seus pacientes foram convidados a participar, em condições de igualdade. Como resultado de todo esse esforço, a IASP é referência em pesquisa sobre dor no mundo e tem sido uma força importante no intuito de estimular o trabalho científico básico e clínico sobre dor. Além disso, a proliferação de clínicas e centros de dor em todo o mundo atesta o grande impacto que a criação dessa associação teve sobre a prática da medicina no tratamento da dor.

A explosão da nova ciência e atividades clínicas relacionadas à dor levou Bonica a planejar uma revisão do seu livro “The Management of Pain” com a ajuda de muitos outros colaboradores. Assim, publicou em 1990 a segunda edição deste livro. Além disso, ele também escreveu o livro “Principles and Practice of Obstetric and Analgesic Anesthesia”, tornando-se usado no mundo inteiro. Como também escreveu centenas de outros artigos muito importantes.

Conseguir que os outros vissem o mundo a sua maneira foi uma das habilidades mais brilhantes de Bonica. Ele foi capaz de influenciar tanto governo quanto o setor privado para apoiar os seus esforços e colocar a investigação e o tratamento da dor no contexto de outros sinais e sintomas importantes no tratamento de pacientes.

O que muitos não sabem é que ele sofreu muito com suas próprias dores crônicas. Os muitos anos de luta levaram ao desenvolvimento de artrite em sua coluna e em grandes articulações; assim ele foi submetido a várias intervenções cirúrgicas, em várias partes de seu corpo. Ele se esforçava para permanecer ativo. Muitas vezes, Bonica teve que consumir muitos medicamentos para seguir com seu trabalho, mas isto não o desanimou. Pelo contrário, como ele sentiu e vivenciou a dor de perto, seria impossível para ele ignorar a dor nas outras pessoas. John lutou com sua doença, assim como desafiou a falta de tratamento adequado para a dor. Bonica se preocupava com a pesquisa e com os cientistas e comprometeu-se a compreender os mecanismos da dor. Sua preocupação era constante com aqueles que sofriam com dor em lugares distantes; o seu desejo era que todos aprendessem sobre o tratamento da dor. Ele se preocupava com seus estudantes, estagiários e colegas. Ele se preocupava com seus filhos e sua esposa, apesar de sua carreira o ter deixado muito tempo longe deles.

John Bonica foi assim, um homem intenso que não vivia em sonhos e fazia as coisas acontecerem; sua vontade era contagiante. Mas, como todo ser humano, seu fim chegou. A morte de sua esposa, Emma, foi um golpe insuperável e, no mesmo mês veio a falecer.

Todos aqueles que buscam o conhecimento sobre a dor ou estão na tentativa de aliviar a dor e o sofrimento em seus pacientes, devem reconhecer que John J. Bonica teve visão e desvendou ao mundo a importância de trabalhar em equipe. Aqueles que estudam dor serão eternamente gratos a ele.

Referências e fontes:


* Farmacêutica Generalista, doutoranda do Depto. de Farmacologia da FMRP-USP

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