Sérgio Henrique Ferreira: quando a curiosidade é a força motriz…


Editorial do mês (especial)

Sérgio Henrique Ferreira: quando a curiosidade é a força motriz…

Ieda Regina dos Santos(1), José Waldik Ramon(2), Mani Indiana Funez(3) e Paulo Gustavo Barboni Dantas Nascimento(4)


Nossa ideia ao escrever este editorial foi contar resumidamente (e “bem resumidamente”) um pouco da história dessa figura ímpar chamada Sérgio Henrique Ferreira. Além da parte textual, procuramos fazer algo um pouco diferente, criando um mural de fotos que ilustra momentos da vida do idealizador do DOL – Dor On Line, mostrando um pouco mais de suas facetas…

 Talvez, até hoje, uma das questões mais difíceis de serem respondidas pelo homem seja: até que ponto chega a tal curiosidade humana? Não sabemos a resposta, porém temos um grande exemplo dela. E esse exemplo chama-se Sérgio Henrique Ferreira.

 Com uma mente sempre curiosa, inquieta e investigativa, Sérgio Henrique Ferreira nasceu em Franca e formou-se médico pela Faculdade de Medicina de São Paulo em 1960. Mudou-se para Ribeirão Preto logo em seguida e instalou-se no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo.

 Mas esse é apenas o começo da história dele. Em Ribeirão Preto, Sérgio era participante do grupo do Prof. Maurício Oscar da Rocha e Silva, proeminente membro da Farmacologia brasileira. Nessa época, em uma das idas de Rocha e Silva ao exterior, Sérgio fez a primeira grande descoberta de sua carreira: o BPF.

 Para melhor compreensão da extensão dessa descoberta, é necessário mencionar que era sabido na época que a bradicinina poderia ser gerada no plasma sanguíneo a partir da exposição ao veneno da jararaca (Bothrops jararaca). Rocha e Silva havia se destacado internacionalmente por essa importante descoberta, ao demonstrar que essa substância causava a morte da pessoa mordida pela serpente ao provocar queda abrupta da pressão arterial. Porém, ao ser produzida sinteticamente, a substância possuía efeitos muito aquém da original. E foi Sérgio Ferreira, usando toda sua curiosidade, que questionou e investigou o motivo dessa diferença entre as substâncias. Segundo ele mesmo, se a bradicinina natural era mais potente quando retirada do plasma inoculado com o veneno, deveria haver ali algum fator que potencializava o efeito da bradicinina. Os experimentos demonstraram que havia mesmo um elemento potencializador no veneno da jararaca e a ele foi dado o nome de Fator Potencializador da Bradicinina (Bradykinin Potentiating Factor – BPF). Quando Rocha e Silva corrigiu o artigo sobre o BPF escrito por Sérgio, retirou seu próprio nome da coautoria, reconhecendo a brilhante iniciativa de Sérgio e, também, para que Sérgio tivesse seu próprio mérito. Na sequência, Sérgio utilizaria o BPF para controle da pressão arterial em modelos de animais hipertensos.

 A partir desses experimentos foi desenvolvida uma nova classe de fármacos anti-hipertensivos, os inibidores da Enzima Conversora da Angiotensina (ECA), cujo protótipo foi o Captopril.

 O artigo sobre o BPF abriu as portas da Europa para Sérgio. Além disso, Sérgio e Maria Clotilde, sua esposa, começavam a se tornar referências em seus respectivos grupos.

 O golpe militar de 1964 tornou o casal uma dupla de vigiados pelo sistema, pois eram referências políticas, embora nunca fossem diretamente ligados a partidos ou militâncias. Esse foi um acontecimento importante na carreira de Sérgio, pois o colocou diretamente em contato com John Robert Vane, do Royal College of Surgeons, Inglaterra.

 Junto a Vane e sua equipe, Sérgio começou a trabalhar nas pesquisas relacionadas com inflamação, dor, analgésicos e anti-inflamatórios. Lá, o grupo demonstrou a sensibilização dolorosa provocada por prostaglandinas. Esse fato contribuiu para que Vane publicasse, em 1971, um trabalho no qual elucidou o mecanismo de ação da aspirina, que era o medicamento mais conhecido no mundo. O conjunto de trabalhos do grupo em associação com o trabalho de Vane propunha que a aspirina e toda classe dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) seriam capazes de inibir a síntese de prostaglandinas e, com isso, diminuir a sensibilização e a dor inflamatórias, efeito esse responsável pela melhora clínica observada com o uso dos AINEs. Essa descoberta rendeu a Vane o Prêmio Nobel de Medicina de 1982 e ao grupo projeção e consolidação internacional.

 No final da década de 1970, Sérgio retomou seus trabalhos no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, onde desenvolveria um sem número de trabalhos envolvendo experimentos para elucidar mecanismos referentes à dor, inflamação e seu controle. Nesse local, ministrou aulas na graduação, orientou alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós-doutorado, além da extensa pesquisa científica que desenvolveu ao longo de mais de 50 anos dedicados à ciência.

 No ano de 1992, o grupo de pesquisa de Sérgio deu um passo importante no estudo da dor e da inflamação. Os esforços do grupo no entendimento dos mecanismos envolvidos nos processos de sinalização e mediação do processo inflamatório e da sensibilização do nociceptor associado a ele resultaram na delineação dos papéis das citocinas pró-inflamatórias TNF-α, IL-6, IL-8 e IL-1β em uma hierarquia temporal de sinalização proposta como cascata inflamatória, culminando na liberação de mediadores eicosanoides e aminas simpatomiméticas. Esta foi uma importante linha de pesquisa de Sérgio em conjunto com Fernando de Queiróz Cunha (seu aluno), na qual foram publicados vários artigos.

 Além disso, um novo mecanismo de ação anti-inflamatória de glicocorticoides é desvendado, através da inibição da produção destas citocinas, sobretudo pelo trabalho de pós-doutoramento do Prof. Fernando de Queiroz Cunha, em colaboração com a Wellcome Foundation, na Inglaterra.

 Complementando os estudos de sensibilização dolorosa dos nociceptores e inflamação, além do entendimento do comportamento de várias personagens no foco inflamatório (pró-inflamatórias, anti-inflamatórias e fármacos analgésicos) mencionadas acima, Sérgio também produziu conhecimento referente ao comportamento do nociceptor neste processo. Tal célula – o nociceptor – atua como uma unidade integrada, altamente dinâmica, em que fenômenos que ocorrem no foco inflamatório e afetam seu axônio perifericamente dirigido não estão desconectados de fenômenos espinais que afetam tanto o axônio centralmente dirigido quanto os gânglios das raízes dorsais. Esta “forma de funcionar” do nociceptor foi descrita como um mecanismo farmacodinâmico, batizado por ele de teleantagonismo. Tais achados foram apresentados por Sérgio no seu Artigo Inaugural junto à Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América.

 A sensibilização dolorosa também pode tornar-se crônica, e Sérgio desenvolveu modelo experimental para seu estudo. Trata-se de um dos poucos modelos no mundo propostos para estudar o efeito da inflamação crônica puramente, sem um componente neuropático onde tenha havido lesão mecânica ou química do sistema nervoso periférico. Neste sentido, foram publicados trabalhos acerca do mecanismo molecular de manutenção e de controle de tal condição, bem como do processo subjacente ao seu desenvolvimento.

 O estudo dos efeitos periféricos de analgésicos e anti-inflamatórios também foi outra importante linha de pesquisa de Sérgio Ferreira. Iniciada na década de 1960, mais como uma ferramenta para o entendimento da inflamação e fenômenos dolorosos associados, tomou robustez a partir da década de 1970. Os efeitos periféricos de opioides e dipirona, bem como seus mecanismos moleculares, foram elucidados. É importante mencionar que o efeito periférico de opioides, descrito atualmente em muitos livros-texto de Farmacologia, não foi completamente aceito pela comunidade científica até meados da década de 1990. Sérgio foi um defensor incansável e intrépido (de tudo o que ele acreditava, diga-se de passagem) de tal efeito. Quanto ao efeito da dipirona, talvez por ser um fármaco não comercializado em muitos países de tradição em pesquisas na área, seu mecanismo de ação ainda não está completamente elucidado, mas certamente o conhecimento pertinente até o momento teve grande contribuição de Sérgio e seu grupo.

 Além da ciência pura, Sérgio estendeu seus horizontes em outras atividades ligadas à ciência. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE) e, também, fundador e presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FESBE). Foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), tendo recebido da entidade o título de seu presidente de honra. Além de um grande número de prêmios conquistados ao longo de sua carreira, Sérgio tornou-se membro da Academia Brasileira de Ciências, da National Academy of Sciences (Academia Nacional de Ciências) dos Estados Unidos da América e da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (Third World Academy of Sciences – TWAS). Foi um dos fundadores e diretores do Brazilian Journal of Medical and Biological Sciences.

 Recebeu, ao longo de sua vida, diversos prêmios nacionais e internacionais por sua contribuição para a ciência. Alguns deles citamos abaixo:

  • Prêmio “CIBA Award for Hypertension Research”, outorgado pela American Heart Association, em 1983;

  • Em 1990, em reconhecimento a seu trabalho, a Sociedade Norueguesa de Hipertensão instituiu o prêmio “Ferreira Award” para pesquisadores que se sobressaíssem na área de hipertensão arterial;

  • Prêmio “The Award of the Third World Academy of Sciences”, outorgado pela TWAS, em 1990;

  • Prêmio “The Scientific Merit Award” outorgado pela Interamerican Society for Clinical Pharmacology and Therapeutics, em 1992;

  • Indicado ao Prêmio Nobel de Medicina, em 1994, pela Sociedade do Coração dos Estados Unidos (American Heart Association);

  • Em 1995 recebeu o prêmio Cooperacion Cientifica y Tecnologica Internacional “Dr. Luis Frederico Leloir”, instituído pelo governo da Argentina;

  • Foi agraciado com a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico na classe da Grã-Cruz, recebida do Presidente Fernando Henrique Cardoso;

  • Em 1998, foi reconhecido pela Revista Médicos como um dos dez maiores médicos do século XX no Brasil, juntamente com Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz, Carlos Chagas, Euclides Zerbini, Rocha e Lima, Adib Jatene, Gaspar Vianna, Ivo Pitangy e Rocha e Silva;

  • Cedeu seu nome ao Ambulatório de Cardiologia e Hipertensão Arterial do Centro de Saúde Escola do Sumarezinho, em Ribeirão Preto;

  • Foi nomeado cidadão ribeirãopretano, título concedido pela Câmara Municipal local.

  • Além de muitos títulos ao longo de sua carreira, Sérgio formou muitos estudantes, dos quais a maioria atua como docente nas melhores universidades do Brasil. Muitos destes ex-alunos mantinham projetos em colaboração com o antigo mestre. Retratamos, abaixo, Sérgio Henrique Ferreira em números:

  • 24 prêmios e títulos;

  • 304 artigos completos, publicados em periódicos;

  • 03 livros publicados/organizados ou edições;

  • 51 capítulos de livros publicados;

  • 15 textos em jornais de notícias/revistas;

  • 64 supervisões e orientações;

  • 01 sistema computadorizado de análise da hiperalgesia em ratos por tratamento de imagem.

No carnaval de 2004, um grupo carnavalesco de Ribeirão Preto chamado “Bloco Berro” homenageou Sérgio Ferreira com uma marchinha de carnaval. De autoria de Márcio Coelho, a marchinha trazia em sua letra uma receita anti-ressaca desenvolvida pelo próprio Sérgio e que, segundo os “cachaceiros de plantão”, funcionava muito bem! Reproduzimos ao lado (quadro na cor laranja) a letra dessa marchinha…

E, para não deixar de citar, Sérgio inventou esse boletim que você agora lê, o DOL – Dor On Line. A ideia aqui foi de fazer uma espécie de revista eletrônica com direcionamento para profissionais da área de dor e que fosse, também, de interesse geral para o leitor comum, desmistificando a ciência e tornando-a acessível.

Mas, como muitas coisas na vida, também a vida é efêmera. Sérgio se foi no dia 17 de julho de 2016. Deixou um grande legado. Para nós, que trabalhamos juntos por tanto tempo, ficarão as conversas, as palhaçadas, as brincadeiras e tantas outras coisas que fizemos durante muito tempo, enquanto fazíamos esse boletim e outras coisas que nos metíamos a fazer juntos. Esse seu legado aqui, que ele sempre chamou de “jornal DOL”, será continuado! Porque, dentre muitas coisas, aprendemos que era divertido fazer isso, como ele sempre deixou transparecer. Afinal, segundo ele mesmo, “é de derrota em derrota que a gente chega lá“… Ficaremos com referências dele bem mais importantes do que aquelas que estão nos mecanismos de indexação de artigos…

Fique em paz, querido amigo! Nós estaremos por aqui…

FONTE

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