A dor é descrita como “experiência sensorial com tonalidade afetiva desagradável, oposta ao prazer induzida por estímulos (nocivos/nociceptivos) mecânicos, térmicos, químicos, elétricos ou fisiopatológicos”.1 Esta é associada à lesão real ou potencial dos tecidos, ou ainda relatada como se uma lesão fosse; onde cada indivíduo aprende a utilizar o termo “dor” de acordo com suas experiências anteriormente vividas.4 É ainda, um sintoma com finalidade de proteção para manter a integridade física, no ambiente, através da sinalização diante da presença de ameaças, e de defender o organismo da ocorrência de distúrbios patológicos orgânicos por meio dos sistemas imunes inato e adaptativo2.

Existem diversas formas de classificar a dor, uma delas, que diz respeito à duração da sua manifestação, subdivide-se da seguinte forma:

  • Dor aguda: manifestação transitória, durante um curto período, que irá de minutos a algumas semanas. Está associada a lesões em tecidos ou órgãos, provocada por inflamação, infecção, traumas ou outros fatores. A resolução ocorre quando a causa é diagnosticada corretamente e o tratamento de escolha é seguido conforme recomendações3. Ex: dor pós-operatória.

  • Dor crônica: manifestação prolongada, que poderá ocorrer por um período de alguns meses a anos e que muitas vezes está relacionada a um processo patológico crônico. A dor crônica ainda poderá estar relacionada a uma lesão já tratada antecipadamente3. Exemplo: dor relacionada a esforços repetitivos, dor lombar, dor do paciente oncológico.

  • Dor recorrente: manifestação em períodos de curta duração, porém com repetição do evento frequente, podendo ocorrer durante toda as fases da vida do indivíduo, mesmo sem estar associada a algum processo específico3. Exemplo: enxaqueca.

A dor, quando não tratada de forma adequada, pode vir a afetar negativamente o status físico e mental do paciente, comprometendo assim sua qualidade de vida5. Cabe ressaltar que a dor é um fator que limita o indivíduo na realização de suas atividades de vida diária e profissionais. Estas limitações podem resultar em distúrbios psicológicos, os quais potencializam a dor. Um estudo realizado no Brasil com pacientes fibromiálgicos evidenciou que 30% dos pacientes portadores desta doença exibiram depressão grave e 34% depressão moderada. O mesmo estudo mostrou que 70% dos pacientes fibromiálgicos apresentaram traços de ansiedade significativa e 88% apresentaram estado de ansiedade alta6.

Logo, estes dados reafirmam a necessidade da abordagem terapêutica da dor, visando controlar o quadro álgico, reestruturar a capacidade funcional e melhorar a qualidade de vida dos pacientes6.

Para um tratamento efetivo é importante identificar a dor através de uma avaliação, comunicar a equipe, bem como a família do paciente. O diagnostico do tipo da dor é fundamental para um tratamento mais efetivo7. Das possibilidades de avaliação, temos escalas numéricas, nominais, analógicas e ilustradas. A partir desta identificação se propõe um tratamento.

O tratamento culminará da prática derivada das chamadas tecnologias em saúde, que consistem em um conjunto de conhecimentos e recursos destinados a prevenir e ou tratar/reabilitar os indivíduos. Estas tecnologias envolvidas no trabalho em saúde classificam-se em:

  • Leves: como as relações do tipo produção de vínculo, acolhimento e gestão como uma forma de governar processos de trabalho;

  • Leve-duras: saberes estruturados que operam no processo de trabalho em saúde, como a clínica médica, a clínica psicanalítica e a epidemiologia;

  • Duras: material concreto, como máquinas, normas e estruturas organizacionais8.

No campo da saúde, a tecnologia não se opõe ao toque humano, mas se configura como agente e objeto deste toque. A principal finalidade do uso dessas tecnologias é tornar cada vez mais eficiente a atividade humana através da produção ou aperfeiçoamento dessas atividades que, direta e/ou indiretamente, estão a serviço do cuidado8.

Há, por outro lado, uma relação estabelecida entre as tecnologias de interdependência (conforme ilustrado na figura 1), uma vez que a aplicação da tecnologia leve só é possível porque existem tecnologias leve-duras e duras, estabelecendo assim uma conexão entre as mesmas. Estas relacionam-se através do cuidado, sendo este um somatório de decisões e de articulação de profissionais e ambientes que tenta ser o mais adequado possível às necessidades de cada paciente5.

Figura 01: Diagrama de Venn da inter-relação das Tecnologias em Saúde.

 

É importante lembrar que os avanços farmacológicos e outros tratamentos na dor aguda, crônica ou neuropática são associados à influências físicas, psicológicas, emocionais, sociais, culturais, espirituais e financeiras, a escolha do melhor recurso aplicável a cada situação patológica de dor. Este conceito dependerá necessariamente das abordagens terapêuticas e das formas como se organizam os diversos contextos de saúde. Essas abordagens podem ser divididas em: multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar.

No modelo de multidisciplinaridade o paciente poderá ser atendido por diversas especialidades em saúde, mas que não estabeleçam uma comunicação entre si. Esta falta de comunicação pode se tornar um problema, levando à diferentes expectativas e desfechos produzidos pelos participantes da abordagem, o que pode ser confuso tanto para o paciente quando para seus familiares8. Na interdisciplinaridade o paciente será atendido por uma equipe com diversas especialidades que irão interagir entre si, porém cada um foca na sua especialidade. Um grande desafio para esse tipo de abordagem é a colaboração entre os participantes, estando os profissionais abertos a sugestões vindas de áreas distintas, para assim resolver conflitos, definir prioridades e atingir o objetivo em comum: a melhora do paciente8.

Finalmente, a transdisciplinaridade consiste no ambiente em que o paciente é atendido por uma equipe composta por diversas especialidades onde o objetivo é centrado no paciente, este modelo possui ainda a peculiaridade de proporcionar ao paciente e sua família o empoderamento do seu tratamento, ou seja, ter a consciência e participar ativamente de todo o processo das decisões acerca das terapêuticas que serão tomadas. A abordagem transdisciplinar enfatiza o aprendizado, o treinamento e a educação, além de fornecer uma maior flexibilidade entre os papéis que as especialidades terão no tratamento do paciente. Na transdisciplinaridade a equipe não compartilha apenas o objetivo global (manejo da dor), mas também o mesmo planejamento, independente da especialidade8. Além disso, podemos ressaltar o respeito às necessidades específicas e o contexto cultural onde esse paciente está inserido. Conhecer suas crenças, habilidades cognitivas, capacidade de compreensão e linguagem permitem que o tratamento seja feito em um contexto mais amplo e integral, favorecendo a eficácia da abordagem transdisciplinar e adesão do paciente ao tratamento8,9.

Um dos fatores limitantes na implementação da transdisciplinaridade no tratamento da dor é a logística de comunicação entre os profissionais envolvidos. O que podemos observar hoje é o diagnóstico médico com o auxílio das tecnologias leve-duras, seguido da prescrição dos medicamentos e tratamentos necessários. Entretanto, os profissionais que realizarão estes procedimentos (fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, enfermeiros, entre outros) em momento algum terão contato com o profissional iniciador do tratamento. Uma comunicação efetiva entre o paciente e todos os profissionais envolvidos no tratamento só é possível em clínicas específicas, chamadas “Clínicas da Dor”, infelizmente poucas em âmbito nacional. Daí a importância de sua disseminação como forma do paciente se tornar parte atuante em sua recuperação, ou seja, empoderando o paciente e sua família do tratamento escolhido.

Desta forma o uso das tecnologias e o direcionamento transdisciplinar requerem um embasamento científico fundamental e básico, bem como recursos organizacionais para o efetivo cuidado na dor do paciente. No manejo da dor, para a terapêutica ser implementada e garantir satisfação analgésica no paciente, implica-se em aprimorar os recursos materiais e humanos atuantes, capacitando-os para a avaliação, análise e intervenções acuradas nesse sintoma10.

Lançada em fevereiro de 2004 a Política Nacional de Educação Permanente em saúde (EPS)11 possibilita a identificação da necessidade de formação e de desenvolvimento dos trabalhadores da área da sáude. Sua implantação precisa estar articulada aos princípios da intersetorialidade com equipes capazes de romper a formação fragmentada reafirmando assim os princípios do SUS que inclui o atendimento integral ao paciente que visa garantir a “promoção, proteção e reabilitação da saúde não devendo esses serem feitos de forma fracionada”. Assim a EPS destina-se à transformação do modelo de atenção, fortalecendo assim a abordagem transdisciplinar, visando prestar ao paciente um atendimento integral voltado a sua autonomia no cuidado da saúde.

A conscientização dos profissionais na participação das tecnologias no processo saúde-doença-cuidado na dor do paciente organiza, humaniza e desenvolve uma resposta favorável ao tratamento. O cuidado adequado proporciona a melhoria da qualidade de vida através do controle da dor, sendo a abordagem transdisciplinar fundamental, pois os profissionais possuem um objetivo comum focado na melhora do quadro geral do paciente.

Figura 02: Colaboradores

Referências:

1. Ferreira, J.; Beirith, A.; Mori, M. A. Reduced nerve injury-induced Neuropathic pain in kinin B1 receptor knockout mice. Journal of Neuroscience, 2008, v. 25, p. 2406-2412.

2. Souza JP. Síntese e avaliação da atividade antinociceptiva de uma benzofurona derivada da Xantoxilina: Hipótese sobre o possível mecanismo de ação [dissertação]. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí; 2011.

3. SBED. Sociedade Brasileira para Estudo da Dor. Disponível em: www.sbed.org. Acesso 29 de agosto de 2016.

4. IASP. International Association for the Study of Pain, 2012. Disponível em: http://www.iasp- pain.org/ Acesso em: 30 de agosto de 2016.

5. Paiva ES, Coginotti V, Müller CS, Parchen CFR, Urbaneski F. Manejo da Dor. RevBrasReumatol. 2006 [citado 2016 ago 29]; 46(4):292-296.

6. Lorena, S. B. et al. Avaliação de dor e qualidade de vida de pacientes com fibromialgia. Rev. dor [online]. 2016, vol.17, n.1, pp.8-11.

7. Romanek FARM, Avelar MCQ. O ensino de intervenções de Enfermagem como estratégia não farmacológica para alívio da dor. Rev Dor. São Paulo, 2014, out-dez;15(4):264-6.

8.Gordon RM, Corcoran JR, Bartley-Daniele P, Sklenar D, Sutton PR, Cartwright F. A transdisciplinar team approach topain management in inpatienthealthcare settings. Pain Management Nursin. 2014, vol 15, No 1 (March): pp 426-435.

9.Falender, C.A., & Shafrankse, E.P. Clinical Supervision: A competency-based approach. Washington, DC: American Psychological Association.

10. PEREIRA, C; PINTO, D; TOURINHO,F; SANTOS, V. Tecnologias em Enfermagem e o Impacto na Prática Assistencial. Revista Brasileira de Inovação Tecnológica em Saúde, OnLine, 2012.

11. Ministério da Saúde. Portaria nº 198/GM – MS, de 13 de fevereiro de 2004. Institui a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde como estratégia do Sistema Único de Saúde para a formação e o desenvolvimento de trabalhadores para o setor e dá outras providências. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.


* Mani Indiana Funez, Albênica Paulino Dos Santos Bontempo, Amanda De Araujo Fonseca, Amanda Souza Menezes, Antônio Leonardo De Freitas Garcia, Brigida De Paula Andrade Brito, Caroline De Oliveira Alves, Gabriela De Sousa Martins, Gisela De Martins Souza Pina, Hayssa Moraes Pintel Ramos, Paulo Henrique Fernandes Dos Santos, Priscilla Cartaxo Pierri Bouchardet, Renata Pascoal Illanes Tormena, Tila Viana Fernandes Marques.

FONTE

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