Pesquisadora do CRID encontra relação entre pênfigo e inseto transmissor da leishmaniose

Um projeto conduzido por uma pesquisadora associada do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) está mostrando importante relação entre o pênfigo e o inseto Lutzomyia neivai, transmissor da leishmaniose tegumentar. A descoberta pode resultar em futura opção de tratamento para pacientes portadores dessa doença autoimune, também conhecida como fogo selvagem, que causa bolhas na pele e é endêmica na região de Ribeirão Preto.

Desde 1999, a professora associada da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP Ana Maria Ferreira Roselino estuda a proteína maxadilan, presente na glândula salivar do inseto Lutzomyia longipalpis, transmissor da leishmaniose visceral. “Quando o inseto pica, ele injeta várias proteínas salivares, entre elas, o maxadilan. Seu efeito é vasodilatador, antitrombogênico [impede a formação de coágulos] e anti-inflamatório. Por isso a picada só coça depois que o inseto vai embora”.

Inicialmente, a presença dessa proteína havia sido descrita apenas em Lutzomyia longipalpis. Porém, embora não haja presença desse vetor na região de Ribeirão Preto, Ana Maria notou que exames de pacientes com pênfigo também mostravam a presença de anticorpos para maxadilan.

“Em nossa região, encontramos apenas a Lutzomyia neivai, transmissora da leishmaniose tegumentar. Porém, ao forrarmos placas do teste de ELISA com maxadilan e acrescentarmos o soro de pacientes com pênfigo e leishmaniose tegumentar, o exame reconheceu a proteína como estranha ao organismo. Então nos questionamos: se pacientes daqui com essas doenças apresentam anticorpos para essa proteína, mas a região não tem o vetor, o que estaria acontecendo?”, conta Ana, que também atua no ambulatório de pênfigo do Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto, pioneiro no tratamento da doença com pulsoterapia e Rituximab.

Extraindo o segmento encefálico de exemplares de L. neivai, que contém a glândula salivar do inseto, ela notou, pela análise de proteínas de DNA e RNA, que havia expressão de maxadilan símile. Com a colaboração do aluno de doutorado direto Sebastián Vernal e da professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp Araraquara Mara Cristina Pinto, também foram extraídos os intestinos e as glândulas salivares dos vetores e enviados aos Estados Unidos, para análise do proteoma [conjunto de proteínas e variantes de proteínas que podem ser encontrados numa célula específica quando esta está sujeita a um certo estímulo]. Posteriormente, a análise in silico feita pelo pesquisador do National Institute of Allergy and Infectious Diseases José Marcos Ribeiro gerou mais de 11 mil sequências proteicas, 16 delas para maxadilan, que foram depositadas no National Center for Biotechnology Information (NCBI).

A principal hipótese elaborada com os resultados, segundo Ana, é que, ao picar um paciente geneticamente suscetível ao pênfigo, proteínas salivares de L. neivai podem suscitar o aparecimento da doença. “Essa descoberta abre uma gama imensa de estudos. Se identificamos o maxadilan em L. neivai, podemos sintetizar sequências da proteína e testar se o paciente reconhece sequências específicas”, explica.

Além disso, o doutorando Sebastián Vernal, que é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), estuda a similaridade de peptídeos salivares de insetos hematófagos com moléculas epidérmicas nos pênfigos. Segundo Ana, nesse trabalho, além de L. neivai, estão sendo analisados extratos da saliva de Aedes aegypti, transmissor da dengue, e Similium nigrimanum, popularmente conhecido como borrachudo. Os resultados estão em fase de redação para serem enviados a revistas científicas.