Pesquisa realizada pelo CRID avança na compreensão do papel da gordura nas doenças cardiometabólicas

A obesidade aumenta o risco de morte prematura e o desenvolvimento de várias doenças cardiovasculares, como acidente vascular cerebral (derrame), infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca. No entanto, alguns indivíduos magros desenvolvem doenças cardiovasculares e alguns indivíduos com obesidade grave são saudáveis.

Diferenças na distribuição da gordura corporal e nas características dos diferentes depósitos de tecido adiposo (gordura) tem relação direta com o risco de desenvolver doenças cardiometabólicas. A camada de gordura adventícia, gordura que fica ao redor dos vasos sanguíneos, também conhecida como tecido adiposo perivascular (PVAT), também influencia o aparecimento de doenças cardiovasculares.

O PVAT regula a função vascular, isto é, resposta de contração e relaxamento dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a distribuição de sangue aos vários órgãos e tecidos do organismo. O PVAT produz e libera vários fatores como citocinas e adipocinas, substâncias
envolvidas na resposta inflamatória.

Rafael Menezes e outros pesquisadores do CRID resumiram em publicação no Frontiers of Physiology o que se conhece sobre o PVAT e doenças cardiovasculares na obesidade. Estes pesquisadores também demonstraram que na obesidade o PVAT deixa de funcionar adequadamente, o que contribui para os problemas vasculares observados em indivíduos obesos.

Sob condições normais, o tecido adiposo perivascular (PVAT) atenua a contração dos vasos sanguíneos (possui função anticontrátil). Em animais experimentais obesos ou com síndrome metabólica, o PVAT perde a capacidade de atenuar a contração dos vasos sanguíneos, o que pode contribuir para as complicações vasculares e aparecimento de doenças cardiovasculares.

Sobre a pesquisa

O grupo de Farmacologia Cardiovascular investiga uma modificação de proteínas por moléculas de açúcar [glicosilação por adição de N-acetilglucosamina (O-GlcNAc)]. Uma dieta rica em açúcar é capaz de aumentar a quantidade de proteínas modificadas por O-GlcNAc no PVAT, este efeito interfere na função anticontrátil do PVAT. Para avaliar os mecanismos moleculares pelos quais o O-GlcNAc contribui para a disfunção do PVAT, os pesquisadores utilizaram ratos Wistar alimentados com dieta controle ou com dieta rica em açúcar, por 10 e 12 semanas. Os animais alimentados cronicamente com a dieta rica em açúcar exibiram características de síndrome metabólica, aumento de proteínas modificadas por O-GlcNAc e PVAT disfuncional, ou seja, PVAT que não consegue atenuar a contração dos vasos sanguíneos.

O pesquisador Rafael Menezes observou que o PVAT de aortas torácicas de ratos alimentados com dieta rica em açúcar tem menor produção de óxido nítrico (NO) e redução da sintase do óxido nítrico endotelial (eNOS), enzima que produz NO. A dieta rica em açúcar aumentou a adição de açúcar na enzima eNOS do PVAT. Alterações semelhantes foram observadas no tecido adiposo visceral de pacientes com hiperglicemia.
Este trabalho indica que a O-GlcNAc contribui para a disfunção do PVAT e para as alterações vasculares que ocorrem na síndrome metabólica e em condições associadas à hiperglicemia.

Publicações

Increased O-GlcNAcylation of Endothelial Nitric Oxide Synthase Compromises the Anti-contractile Properties of Perivascular Adipose Tissue in Metabolic Syndrome.
da Costa RM, da Silva JF, Alves JV, Dias TB, Rassi DM, Garcia LV, Lobato NS, Tostes RC.
Front Physiol. 2018 Apr 6;9:341. doi: 10.3389/fphys.2018.00341. eCollection 2018.

Perivascular Adipose Tissue as a Relevant Fat Depot for Cardiovascular Risk in Obesity.
Costa RM, Neves KB, Tostes RC, Lobato NS.
Front Physiol. 2018 Mar 21;9:253. doi: 10.3389/fphys.2018.00253. eCollection 2018. Review.