Josh Dignam, do William Harvey Research Institute, venceu o primeiro Prêmio Pharmacology Matters, citando estudo realizado por ex-pesquisador do CRID

Direcionado a pesquisadores em início de carreira, o prêmio concedido pela British Pharmacological Society buscou artigos originais e divertidos que pudessem ser apreciados pelo público leigo.

O artigo de Josh Dignam, intitulado Das presas à farmacologia: uma cura mortal para doenças cardíacas, mencionou que aproximadamente 2,7 milhões de acidentes com serpentes venenosas ocorram anualmente no mundo, resultando em cerca de 400.000 pessoas incapacitadas e 100.000 mortes. No entanto, para os farmacologistas, as cobras são verdadeiros tesouros para a descoberta de novas drogas. 

O veneno das cobras contém uma mistura potente de toxinas destinadas a subjugar e matar suas presas ou afastar predadores. Com moléculas que atuam seletivamente nos sistemas circulatório e nervoso, as toxinas do veneno podem levar ao desenvolvimento de novos medicamentos. John descreveu que até o momento, três drogas foram desenvolvidas com sucesso a partir do veneno de serpentes, todas para o tratamento de doenças cardíacas, sendo que uma delas é fruto das contribuições de dois pesquisadores brasileiros, os Professores Mauricio Rocha e Silva e Sérgio Henrique Ferreira, este último, foi um dos pesquisadores principais do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias-CRID até 2016.

Captopril: um caso de sucesso.

Trabalhadores de plantações picados pela serpente Bothrops jararaca muitas vezes desmaiam devido a uma queda repentina na pressão sanguínea. Seu veneno é tão potente que algumas tribos indígenas o aplicavam nas pontas de suas flechas e dardos.

Esse conhecimento local despertou o interesse do farmacologista brasileiro Mauricio Rocha e Silva que começou a investigar como a picada da víbora causava choque vascular. Em 1948, ele descobriu uma substância – um polipeptídeo a que ele chamou de bradicinina -, que se acumula no plasma após a administração do veneno da Bothrops jararaca com capacidade de relaxar os vasos sanguíneos e reduzir a pressão arterial. 

No início dos anos 60, Sérgio Henrique Ferreira, então estudante do prof. Mauricio Rocha e Silva, isolou do veneno uma substância que impedia a degradação da bradicinina e potencializava a redução da pressão arterial. Em um artigo publicado no British Journal of Pharmacology, a substância foi denominada “fator potenciador da bradicinina (BPF)”.

Em 1964, Ferreira viajou para Londres para se juntar a um grupo liderado por John Vane no Royal College of Surgeons. Na época, Vane estava investigando ativamente a causa da pressão alta (hipertensão arterial). Vane já havia sugerido que a inibição da enzima conversora de angiotensina (ECA) – enzima que cliva angiotensina I e gera angiotensina II, peptídeo com potente efeito vasoconstrictor e que aumenta a pressão arterial sanguínea – poderia tratar a hipertensão arterial. 

Usando veneno fornecido por Sérgio Ferreira, Y.S. Bakhle demonstrou que o BPF bloqueava a atividade da ECA, inibindo a produção de angiotensina II e também a quebra da bradicinina (Figura 1).

Figura 1 – os inibidores da ECA bloqueiam a produção do hormônio angiotensina II, que aumenta a pressão arterial, e previnem a quebra do peptídeo bradicinina, que causa vasodilatação e reduz a pressão arterial.

Em 1967, Vane apresentou as suas ideias à empresa farmacêutica Squibb (agora Bristol-Myers Squibb) e encorajou-as a começar a procurar inibidores da ECA. Em resposta, uma equipe em Nova Jersey, liderada por David Cushman e Miguel Ondetti, começou a isolar e purificar os peptídeos do veneno.  

Após a seleção de mais de 2.000 compostos, alterações sistemáticas na estrutura de um peptídeo com boa atividade inibidora da ECA (mas que não podia ser administrado por via oral), uma pequena molécula que poderia ser administrada pela boca foi descoberta: o captopril

Em 1981, o captopril tornou-se a primeira droga inspirada em veneno a obter aprovação da Food and Drug Administration (FDA). Hoje, os inibidores da ECA, como o captopril, continuam sendo uma terapia de primeira linha para o tratamento da hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. 

O desenvolvimento do captopril não apenas avançou o tratamento de doenças cardíacas, mas também demonstrou que as toxinas do veneno são modelos úteis para a descoberta de drogas. Em resposta, mais e mais cientistas começaram a recorrer a cobras na busca de novos remédios. Isso levou ao desenvolvimento de mais duas drogas que são usadas no tratamento de doenças cardíacas. Mas esta é outra história …