Pesquisadores do CRID publicam no Journal of Experimental Medicine

Os linfócitos Th17 tem uma relação intrínseca com o desenvolvimento das doenças auto-imunes. Recentes estudo vêm mostrando que a diferenciação e atividade das células do sistema imune dependem de alterações específicas no seu metabolismo celular, logo, o entendimento dos mecanismos metabólicos responsáveis pela regulação dos linfócitos Th17 mostra-se de central importância para o avanço no conhecimento neste campo e na busca de novas terapias para doenças auto-imunes.

Esse é mote da publicação recente dos pesquisadores do Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (CRID)¹, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) fomentados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e vinculado a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. O escopo de atuação do  CRID é a investigação integrativa e translacional na identificação e validação de rotas biológicas associadas aos processos inflamatórios.

O estudo foi publicado no Journal of Experimental Medicine (JEM), um periódico de alto impacto e extrema relevância na pesquisa médica, cujas origens remontam ao ano de 1896, data em que foi fundado pela Johns Hopkins School of Medicine² e atualmente é publicado pela Rockefeller University Press (RUP)³. O JEM atua na fronteira do conhecimento, com publicações nas áreas de imunologia, biologia do câncer, biologia vascular, patogênese microbiana, neurociência e biologia de células-tronco. O JEM tem factor de impacto 11.743 (2019) e Qualis CAPES A1 em todas às áreas de avaliação.

O esforço conjunto tem como primeiro autor o aluno de doutorado Luis Eduardo A. Damasceno, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) durante seu mestrado, sob a orientação do Professor José Carlos Alves Filho, Pesquisador Principal do CRID e docente da FMRP. Além de ambos, o estudo conta com a participação de diversos pesquisadores4 dentro da estrutura de pesquisa do CRID.

O estudo demonstrou que a Piruvato Quinase M2 (PKM2), uma enzima glicolítica que tem se mostrado necessária para a proliferação de células cancerígenas e a progressão de tumores, é um fator-chave em promover a diferenciação de células Th17, contribuindo para o processo inflamatório de cunho auto-imune.

O que são os linfócitos Th17?

As células T helper 17 (Th17), compreendem uma população específica de células T CD4, com um papel central no sistema imune adaptativo, atuando no controle de patógenos nas barreiras mucosas, mas também na indução da inflamação e dano tecidual associado a autoimunidade.

As doenças inflamatórias são um grupo complexo e diverso de doenças que afetam mais de 10% da população mundial. Os tratamentos disponíveis são limitados e por vezes ineficazes, devido a carência de informações sobre a multiplicidade dos mecanismos de ação envolvidos. Especificamente às doenças auto-imunes representam um grupo tão heterogêneo quanto, composto por até 80 doenças diferentes. somente nos Estados Unidos, até 24 milhões de indivíduos são acometidos pelas doenças auto-imunes como Artrite Reumatóide, Lupus, Psoríase e Esclerose Múltipla.

Comentário de Luis Eduardo A. Damasceno sobre o trabalho: embora a PKM2 tenha sido demonstrada importante para reprogramação metabólica de células tumorais, surpreendentemente, observamos que esta enzima desempenha um papel não-metabólico durante a diferenciação de células Th17. Mecanisticamente, esta enzima é capaz de aumentar a atividade transcricional de STAT3, um fator de transcrição chave para o desenvolvimento desta subpopulação de células T helper. Desta forma, a PKM2 se destaca por contribuir para o processo inflamatório associado a autoimunidade.

Comentário de Jose Carlos Alves-Filho sobre o trabalho: a identificação da PKM2 como uma proteina que regula vias de sinalização envolvidas na diferenciação de células Th17  sugere que ela possa ser um importante alvo farmacológicos, abrindo novas perspectivas para tratamento de doenças auto-imunes. Atualmente, estamos realizando estudos que visam a identificação de compostos que inibam a PKM2.

O trabalho coordenado pelos pesquisadores auxilia no avanço do conhecimento sobre os mecanismos imunológicos e contribui para o processo de construção coletivo da ciência de base na área médica.

Representação esquemática do papel não-metabólico da PKM2 na diferenciação de células Th17 e indução da inflamação autoimune.
  1. Center for Research in Inflammatory Diseases (CPDI). Access here: <http://crid.fmrp.usp.br/institucional/>
  2. Johns Hopkins School of Medicine: 125 years of history. Access here: <https://www.youtube.com/watch?v=mAYJPo_dkfs>
  3. Rockefeller University Press (RUP). Access here: :<https://rupress.org/pages/our-philosophy>
  4. O trabalho é de autoria conjunta dos pesquisadores: Damasceno LEA, Prado DS, Veras FP, Fonseca, MM, Toller-Kawahisa JE, Rosa MH, Públio GA, Martins TV,, Ramalho FS, Waisman A, Cunha FQ, Cunha TM, Alves-Filho JC.
  5.  PKM2 promotes Th17 cell differentiation and autoimmune inflammation by fine-tuning STAT3 activation. Damasceno LEA, Prado DS, Veras FP, Fonseca MM, Toller-Kawahisa JE, Rosa MH, Públio GA, Martins TV, Ramalho FS, Waisman A, Cunha FQ, Cunha TM, Alves-Filho JC. J Exp Med. 2020 Oct 5;217(10):e20190613. https://doi.org/10.1084/jem.20190613