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10/11/2025 13h57

IA pode ser verdadeiramente criativa?

Texto: Flávio Martins, CRID-FMRP/USP
Este texto é um comentário sobre o artigo publicado no portal da revista Nature: Marchant, J. Can AI be truly creative? Nature 647, 24-26 (2025). doi: https://doi.org/10.1038/d41586-025-03570-y

 

"Pianita número 17" é uma peça melancólica para piano em, com acordes que transmitem uma sensação de amor perdido. O que torna essa composição especial não é apenas sua beleza, mas o fato de ter sido criada por Aria, um sistema de IA desenvolvido na Queen Mary University de Londres, treinado com milhares de horas de vídeos do YouTube. A peça levanta uma questão fundamental: pode uma máquina que nunca experimentou amor ou perda criar arte genuinamente criativa?

Desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, testemunhamos uma explosão de conteúdo gerado por IA que rivaliza com trabalhos humanos em poesia, arte visual, música e até hipóteses científicas. Como observa Simon Colton, pesquisador de criatividade computacional, o progresso tem sido "absolutamente impressionante". Mas produzir resultados que parecem criativos torna a IA verdadeiramente criativa?

Redefinindo criatividade

Pesquisadores tradicionalmente definem criatividade como a capacidade de produzir coisas originais. Por esse padrão, sistemas de IA já passam em muitos testes de criatividade. Porém, especialistas argumentam que essa definição é superficial. James Kaufman, psicólogo educacional da Universidade de Connecticut, insiste que devemos examinar o processo, não apenas o produto: "A IA pode produzir um produto criativo, claro, mas não passa por um processo criativo."

Mark Runco, da Southern Oregon University, sugere adicionar autenticidade e intencionalidade à definição, olhando para as emoções subjetivas e experiências vividas que humanos investem em seu trabalho criativo. Caterina Moruzzi, filósofa no Edinburgh College of Art, observa que embora alguns modelos possam avaliar e melhorar seu resultado, "o que eles ainda não podem fazer é dar a si mesmos seus próprios objetivos."

As limitações da IA ficam evidentes em contextos científicos. Quando Amy Ding e Shibo Li testaram o ChatGPT-4 em descoberta científica, ele falhou em revisar hipóteses quando confrontado com dados contraditórios, mantendo conclusões incorretas mesmo sem suporte das evidências. Diferentemente dos cientistas humanos, faltou-lhe a curiosidade para conduzir experimentos exploratórios ou interpretar resultados anômalos.

Na escrita criativa, embora IA possa igualar escritores amadores, histórias geradas por máquinas carecem dos finais narrativos, complexidade retórica e desenvolvimento de personagens encontrados em ficção profissional. Mais revelador ainda é o fato de que quando solicitados a imaginar novos usos para objetos cotidianos, LLMs atuais não conseguem igualar a capacidade inovadora de crianças de cinco anos.

Riscos e oportunidades

As implicações vão além de debates acadêmicos. Pesquisas mostram que a prática criativa melhora o humor, auxilia na regulação do estresse e na flexibilidade cognitiva. Um estudo do MIT de 2024 encontrou que pessoas que dependiam de IA para escrever mostraram conectividade cerebral mais fraca e produziram ensaios menos diversos quando solicitados a escrever sem assistência.

Maria Teresa Llano, da Universidade de Sussex, alerta sobre o "achatamento cultural" – estudos mostram que histórias assistidas por IA são mais similares entre si do que aquelas produzidas apenas por humanos. Jon McCormack, da Monash University, nota que sistemas de IA são "parasitários" da criatividade humana em seus dados de treinamento, capazes de remixar mas não de criar movimentos artísticos independentes.

Contudo, nem todos veem a IA como ameaça. Pesquisas indicam que conteúdo produzido através de colaboração humano-IA frequentemente supera trabalhos individuais. Um estudo de 2023 descobriu que poemas haiku criados colaborativamente por máquinas e humanos foram melhor avaliados no quesito “beleza”. 

A questão central não é se a IA pode produzir coisas que parecem criativas, já é fato concreto que ela pode. A questão mais profunda é se devemos redefinir criatividade para incluir máquinas, e o que perdemos nesse processo. Como argumentam experts, aceitar IA como criativa poderia ser desastroso para a educação, levando professores a valorizar produtos finais sem desenvolver as habilidades humanas subjacentes.

As notas de "Pianita número 17" podem nos comover, mas nos lembram que há uma diferença fundamental entre gerar beleza e experienciá-la, entre produzir arte e precisar criá-la. Preservar essa distinção pode ser essencial para manter nossa humanidade em uma era de máquinas cada vez mais capazes.

 

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