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05/01/2026 08h38

Quando a comida vira vilã

Texto: Henry Victor Silva Pachiega 

Revisão: Flavio Pìnheiro Martins

 

"Se pensar só em proteína e carboidrato, pão vira inimigo". A frase da chef e apresentadora Rita Lobo, em entrevista à BBC News Brasil que viralizou em novembro de 2025, resume um problema crescente: o reducionismo nutricional que transforma alimentos saudáveis em vilões. Quando olhamos para a comida apenas como "fonte de proteína" ou "fonte de carboidrato", perdemos de vista o que realmente importa: a qualidade dos alimentos e os padrões alimentares como um todo. A desinformação nutricional, amplificada por redes sociais e influenciadores, faz com que a população evite, pare de comprar ou até descarte alimentos perfeitamente saudáveis, apenas por influência de falas alarmistas sem base científica.

Para contexto

É importante reconhecer que a preocupação com o consumo excessivo de carboidratos não surgiu do nada. Há evidências científicas de que dietas com controle de carboidratos podem beneficiar pessoas com diabetes tipo 2, resistência à insulina ou obesidade (2). O problema não está em prestar atenção ao que comemos, mas na forma como essa mensagem chega ao público: simplificada, alarmista e sem nuances.

A qualidade dos carboidratos (fibras, índice glicêmico, grau de refinamento) importa mais do que simplesmente "cortar carboidratos" (1). Pão integral, frutas e leguminosas têm efeitos metabólicos completamente diferentes de refrigerantes e doces ultraprocessados. Diferentes abordagens alimentares, como os padrões Mediterrâneo, DASH e plant-based, podem trazer benefícios à saúde cardiometabólica, desde que priorizem alimentos minimamente processados, ricos em fibras e pobres em açúcares simples (2). Não existe uma única "dieta perfeita", mas a redução a slogans como "corte X" ou "coma Y" elimina essas nuances e favorece mitos.

A comunicação em massa tem aumentado a circulação de afirmações simplistas ("carboidrato é veneno", "leite inflama", "frutas têm açúcar demais") que não refletem a complexidade das evidências (3). Quando consumidores recebem mensagens polarizadas, há respostas comportamentais previsíveis: substituição por produtos ultraprocessados, rejeição de alimentos frescos, ou até descarte por medo de que determinado alimento "não seja saudável". Crenças errôneas são comuns e influenciam escolhas alimentares, levando a população a desvalorizar alimentos que cientificamente são benéficos.

Para mitigar esse problema, é fundamental investir em educação nutricional baseada em evidências, com linguagem acessível. Profissionais de saúde precisam ser capacitados para combater mitos ativamente, inclusive nas plataformas digitais. A rotulagem de alimentos também pode ajudar, destacando qualidades positivas para contrabalancear narrativas alarmistas. A lacuna entre ciência e comunicação pública facilita a circulação de mitos que levam a decisões contraproducentes. Fechar essa lacuna beneficia a saúde da população e reduz o desperdício de alimentos bons.

Referências

  1. Ludwig, D. S., Hu, F. B., Tappy, L., & Brand-Miller, J. (2018). Dietary carbohydrates: Role of quality and quantity in chronic disease. BMJ, 361, k2340. https://doi.org/10.1136/bmj.k2340

  2. Pagidipati, N. J., et al. (2023). Dietary patterns to promote cardiometabolic health. Nature Reviews Cardiology. https://doi.org/10.1038/s41569-023-00912-3

  3. Fernández, S. S., et al. (2020). Disinformation about diet and nutrition on social networks: A systematic review. Nutrients, 12(11), 3509. https://doi.org/10.3390/nu12113509

 

Link para a entrevista - https://youtube.com/shorts/Hal34SwAG1k?si=IWhupQ6BYqNZObHh

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