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09/06/2025 19h27

Sofrimento et al.

Texto por Flavio Martins

Quando Gertrude Stein escreveu "Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa", ela estava despindo a rosa de todas as metáforas e simbolismos que carregamos. Uma rosa não precisa representar amor, beleza ou fragilidade. Às vezes, uma rosa é simplesmente uma rosa.

Na academia, muita gente insiste em transformar sofrimento em "lição de vida". Sofrer vira "forjar através do fogo". Esgotamento vira "formação de caráter". Noites em claro viram "o preço da excelência". Criamos uma história onde ter crise de ansiedade é normal e até educativo, onde a angústia dos prazos e as críticas pesadas viram combustível para o intelecto. Isso funciona como uma religião do sofrimento. A carreira acadêmica vira um calvário obrigatório: mestrado, doutorado, pós-doc — etapas onde vamos apanhar nas defesas, nos concursos, nas avaliações dos colegas, para depois "renascer" dignos de entrar no paraíso universitário. Como na história de Jesus, esse sofrimento não vem dos nossos erros pessoais, mas é um pagamento coletivo por um "pecado original" acadêmico: a cultura tóxica que construímos ao longo de décadas, que transformou conhecimento em castigo e carreira em martírio.

Mas e se aplicássemos a lógica da Stein ao sofrimento acadêmico? E se sofrimento fosse apenas sofrimento, assim como uma rosa é apenas uma rosa?

Esse culto ao sofrimento não é só simbólico. Ela aparece em corpos e mentes, como mostram os números: Uma pesquisa recente com 62 estudos, cobrindo mais de 8,7 milhões de estudantes universitários no mundo todo, revela que 35% têm sintomas de depressão, 40% têm ansiedade, 41% têm problemas de sono. Mais de 10% pensaram em suicídio nos últimos doze meses (Paiva et al., 2025). A pandemia piorou tudo isso, especialmente a depressão. Estudantes da área da saúde estão ainda pior. Esses números são sinais de um sistema que transforma pesquisa em uma máquina de moer carne. A pressão constante, a violência da síndrome do impostor, o isolamento social que colocamos em nós mesmos — isso não nos fortalece. Não é "o que não me mata me fortalece" – frase que Nietzsche desenvolveu para falar sobre superar obstáculos de verdade. Hoje, essa frase foi sequestrada pelo neoliberalismo e pela indústria do coaching para justificar sofrimento desnecessário. Na academia, influenciada pela lógica do mercado, isso vira uma alquimia perversa: transforma crueldade institucional em "virtude educativa", legitimando práticas destrutivas com a desculpa de "preparar para o mundo real".

Despir o sofrimento de seu suposto caráter necessário não é negá-lo, mas recusar sua instrumentalização. É perguntar: que estruturas este sofrimento sustenta? Talvez seja hora de aceitar que nem toda dor ensina, nem todo cansaço forma caráter.

Viktor Frankl, em sua obra mais famosa, "Em Busca de Sentido" (1946), traz algo fundamental sobre esse tópico: o sofrimento só vale a pena quando tem um propósito real, nunca quando é imposto como ritual vazio. O ambiente acadêmico frequentemente esvazia essa lógica, e o sofrimento vira um fim em si mesmo, uma máquina de produtividade sem transcendência. O verdadeiro sentido da vida acadêmica — descobrir, colaborar, crescer intelectualmente — fica escondido pela glorificação da dor. Uma academia voltada para a busca de sentido trocaria competição destrutiva por colaboração real, prazos impossíveis por processos que respeitam o tempo do pensamento profundo, e a cultura do esgotamento por uma ética que vê o bem-estar como condição básica, não luxo, para a excelência intelectual.

A dor faz parte da vida de todo mundo. Não precisamos criar mais dor na academia fingindo que isso prepara as pessoas para o mundo — especialmente através de mecanismos perversos como a lógica do "publish or perish", a precarização dos bolsistas e o incentivo à competição. A cota de dor de cada pessoa já está vindo. Não precisamos fabricar mais. O conhecimento pode florescer na curiosidade, não no desespero. No cuidado, não na crueldade sistemática.

Uma rosa não precisa de justificativa para existir. O sofrimento acadêmico, sim

Sobre os autores:
Flavio Pinheiro Martins é Doutorando pela University College London e pesquisador associado do Laboratório de Patologia Ambiental e Experimental do HCFMUSP


Referência:

Frankl, V. E. (1946). Ein Psychologe erlebt das Konzentrationslager. Verlag für Jugend und Volk. (Edição em português: Frankl, V. E. (2021). Em busca de sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Editora Vozes.)

Nature (2019, May 16). Academia's mental-health woes [Editorial]. Nature, 569(7756), 307. https://doi.org/10.1038/d41586-019-01492-0

Nietzsche, F. (1889). Götzen-Dämmerung, oder, Wie man mit dem Hammer philosophiert. C.G. Naumann.(Nota: O título em português "Crepúsculo dos Ídolos" corresponde à edição brasileira: Nietzsche, F. (2006). Crepúsculo dos ídolos. Companhia das Letras.)

Paiva, U., Cortese, S., Flor, M., Moncada-Parra, A., Lecumberri, A., Eudave, L., Magallón, S., García-González, S., Sobrino-Morras, Á., Piqué, I., Mestre-Bach, G., Solmi, M., & Arrondo, G. (2025). Prevalence of mental disorder symptoms among university students: an umbrella review. Neuroscience and Biobehavioral Reviews, 106244. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2025.106244

Stein, G. (1922). Geography and Plays. The Four Seas Company.

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